segunda-feira, 30 de maio de 2011

Jaqueline

Alguma vez você já se sentiu como se não fosse você mesmo?
E as pessoas te olhavam e diziam: Pobre criança! Partiu feroz, sem olhar para trás.
Alguma vez você já tentou gritar?
E sem alcançar o mais alto timbre, calou-se para sempre...
E todos continuavam dizendo: Pobre criança! Partiu feroz, sem olhar para trás!
Alguma vez você já teve a sensação de ver o mundo, com os olhos voltados para você, dizendo insistentemente: Pobre criança! Não parta!
Jaqueline já. E partiu, feroz. Juntou tudo que tinha em uma pequena mala. Não precisaria de mais nada, pois em seu coração levava o mais importante. Era assim que pensava.
Não ouviu os outros. Partiu a procura do seu destino. Encontrou-o. Revestida de luminosas cores, viu de mãos cruzadas sua vida passando diante de si. Era belo e mágico ver aquele por do sol. Sentada na areia, viu o mar levantar-se. Lembrou-se de suas reminiscências de infância. Lembrou-se de quando via e ouvia todos dizendo: Pobre criança!
Mas o que exatamente tornava Jaqueline uma pobre criança? Nunca ninguém soube explicar. Nem mesmo houve quem se atrevesse a descrevê-la usando outros adjetivos, pois não encontraria em dicionários nenhum vocábulo com valor semântico para tal façanha. E então, Jaqueline?! Como descrevê-la?
E em seus mais belos sonhos, Jaqueline lembrou-se de quando brincava e fingia ser adulta. Que ironia! Hoje, sentada na areia, Jaqueline anseia por voltar ao ventre materno. Desespera-se ao ver o balanço das ondas do mar e segue em direção às aguas. Ainda ouve todos dizendo: Pobre criança! Não parta! Volte, pois o mundo anseia por sua presença. Volte Jaqueline!
E novamente, feroz e sem olhar para trás, partiu Jaqueline de encontro ao mar. Na areia, lágrimas e um pouco do sabor amargo do mundo.