sábado, 27 de agosto de 2011

Pra você, que é tão especial.

Às vezes fechamos as portas para algo inesperado. Pode ser um ladrão e o medo nos faz tomar essa atitude. Pode ser um mendigo, querendo somente algo para comer e saciar sua fome, e muitas vezes a repulsa é a única culpada pelas portas cerradas. Pode ser uma pessoa importante, trazendo boas novas, vindo de muito longe. Mas nem assim deixamos que adentre na nossa casa. Abrir as portas e permitir que essa pessoa entre é aceitar que ela está começando a fazer parte de nossa vida. Mas o desconhecido não pode simplesmente entrar, sentar-se no sofá, pedir um pouco de água e receber a proposta de uma xícara de café. O desconhecido nos causa estranheza e isso é perfeitamente aceitável. Mas o que acontece quando acolhemos esse desconhecido? A resposta é simples: vemos que não era um ladrão, tampouco um mendigo. Mas é um desconhecido, que vem de longe, trazendo um pouco de conforto, querendo ser ouvido e procurando praticar algum tipo de atividade que, quem sabe, fora ensinada por mestres. Porém, essa condição de “desconhecido” deixa de existir instantaneamente. Descobrir afinidades não é nada fácil, principalmente se nos fechamos para tudo e para todos. Assim como não é nada fácil compartilhar sentimentos, angústias. Quem sabe ele é alguém capaz de transmitir e receber confiança, algo frágil que quando conquistado nos dá uma enorme sensação de liberdade, mas que quando quebrado é difícil de ser consertado. O curioso fato é que após longas conversas e segredos confiados, ele deixa de ser o desconhecido que veio de longe e a sensação de liberdade faz-se presente. É a mesma coisa para todos nós. Tentamos não nos aproximar muito das pessoas que vivem próximas ou mesmo das que vivem distantes. É fácil dar a alguns um aceno educado e depois perguntar o que há de errado. É mais seguro continuar andando do que se envolver. Verdade! Às vezes, conhecemos pessoas com as quais dividimos histórias, através da cerca ou mesmo de uma simples janela, e terminamos amigos de longa data. Por algum motivo, continuamos a fechar as portas para um suspeito ladrão, para um possível mendigo e certamente para o desconhecido. Após longas procelas, sabemos que tudo vai passar e a tempestade vai levar com ela o que não desejamos - a sujeira da calçada, as impurezas presentes no ar, o medo, as angústias, sentimentos. Mas após a chuva, sabemos que aquele que aparecera como um desconhecido - e que hoje é um companheiro de longa data, com toda certeza - estará lá, esperando com alguma história nova pra contar, um abraço ou simplesmente com um “oi”, na janela. Juntos, anseiam pelo dia em que não mais estarão distantes, mas sim concretizando aquele sentimento, através de um abraço bem apertado ou quem sabe até mesmo em uma sala de cinema, brotado espontaneamente em uma janela eletrônica.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Pour TOI!

Outro dia resolvi caminhar pela praia. Precisava sentir meus pés sobre a areia. Precisava ouvir o barulho da água batendo nas pedras. Precisava olhar o mar e me sentir vivo novamente.
Acima de tudo, precisava esquecer o mundo que me cercava e esquecer as pessoas que me rodeavam. Fazia pouco tempo que Cecília tinha partido, ainda não a esquecera e meu coração, amiúde, sangrava. Por muito tempo tentamos viver juntos. Infelizmente foi tudo muito efêmero.
Finalmente estava me sentindo melhor. Parecia haver somente eu e as águas. Mas algo me faltava para entrar em conjunção novamente com aquele que havia sido no passado.
De repente, não estava mais sozinho. Não era o único ser a vagar pelas areias, como se estivesse no deserto, perambulando atrás de algo que nunca me fora dado. Olhei para o lado e vi um reflexo. Parecia ser alguém, mas não pude identificar se realmente era alguém ou apenas uma miragem, proporcionada pelo forte sol que cobria todo aquele lugar. Aproximei-me e vi que não estava sonhando: realmente tinha alguém ali. Conversamos e estranhamente tínhamos muitos assuntos em comum. Não conseguia entender como havia encontrado alguém que se parecesse tanto comigo. Pela primeira vez havia me esquecido de tudo, principalmente daquela que tanto me fizera sofrer. Descobrimos um novo mundo, juntos. Perguntei seu nome. Continuamos conversando por muito tempo e cada vez mais sentia como se fôssemos os únicos ali.
Mas do mesmo jeito que chegou, aos poucos vi aquela criatura partindo. Estava indo embora e novamente voltei a sentir medo naquela tarde. E se todos voltassem? E se nos esquecêssemos? Não saberia o que fazer e em uma tentativa desesperada, gritei soluçando:
- Espere! Não me deixe aqui sozinho. Preciso que fique comigo!
- Bobo! -foi assim que me chamou- Isso é apenas um sonho. Logo você irá acordar e verá que tudo isso não passou de devaneio. Quando acordar, não se desespere. Outras noites virão e quando você dormir, estaremos juntos novamente. Sempre que desejar, eu virei até você. E algum dia não te visitarei em seus sonhos. Quando esse dia chegar...
Calou-se, de repente. Deu-me um último beijo e se foi.
De súbito, despertei. Estava molhado pelo suor. Soluçava. É estranho, mas estava feliz com aquela situação. Tentei dormir novamente, mas não consegui. Logo amanheceu. Sai do quarto, tentando encontrar de alguma maneira, aquele ser com quem havia passado um tempo, mesmo sabendo que somente o veria a noite, quando sonhasse novamente.