quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Oui, C'est vrai!

23h52min
- Venham! Corram! Os fogos vão começar!
- Espere um minuto, estou ligando para um amigo que está na França, quero desejar a ele Feliz Ano Novo!
E assim começam ou findam-se, dependendo da perspectiva, toda ansiedade pela chegada de mais um ano. Na sala de jantar, uma mesa farta está posta. É noite de festa e todos os convidados estavam ansiosos por esse momento. Afinal, mais um ano chega ao fim! Todos devem comer bem, beber um pouco de vinho, rir e ficar com aqueles que amam. Mas agora está na hora de ver os fogos... Do lado de fora daquela sombria casa, que esconde muitos segredos e que hoje está iluminada por todas as luzes que a enfeitam, três pessoas são observadas de longe: uma mulher, de pouco mais de 30 anos; um homem, com aproximadamente 40 anos e um jovem rapaz, que não me parece ter mais que 21. São pessoas muitos diferentes e estão ali somente por conhecerem alguém que conhece o dono da casa. Enfim, essas coisas estranhas que acontecem por obra de algo chamado destino. Pobre destino! É ele sempre culpado de tudo. Mas, não foi o destino o personagem principal dessa noite... Do lado de dentro da casa, aproximadamente 11 pessoas se ajeitavam entre os sofás e as cadeiras da sala de estar. Impressionante, mas todos ali agiam como se se conhecessem há décadas, como se tivessem sido amigos por toda a vida e como se naquele momento, de fato, comemorassem juntos a chegada de um novo ano. É lamentável, mas não era bem isso que acontecia naquela estranha casa. Era visível nos olhos de todos que mal se suportavam e estavam ali somente porque não queriam ficar, frustrados talvez, em suas casas assistindo especiais de final de ano na TV.
0h00mim
- Que belo espetáculo! Esse ano os fogos estão mais lindos que no ano passado! Feliz Ano Novo a todos!
- Tens razão! Acho que é a primeira vez que me emociono vendo isso! Feliz Ano Novo!
E assim deu-se início a um brilhante e comovente show pirotécnico no céu. Todos, vestidos de branco e comendo lentilha, olhavam abismados para o alto, maravilhados com tamanha beleza. Após alguns minutos, os 11 que não haviam saído de dentro de casa antes, retornaram ao interior da casa, tomando cada um o seu assento à mesa. Os outros três continuaram do lado de fora da casa, olhando para o céu, que a essa altura já não estava mais iluminado pelos fogos. A mulher de pouco mais de 30 anos, que agora eu sei que se chama Danielle, não tinha tido um bom ano, pois havia sido demitida de seu trabalho, passado por uma complicada cirurgia devido a um aborto espontâneo, que acabou causando lhe complicações. Seu grande sonho havia sido interrompido e ela não seria mãe. Que sorte triste a de Danielle. Seu rosto, pálido e magro, trazia todo sofrimento do qual fora vítima. Seus olhos, que eram lindos, naquela noite lacrimejavam mais do que nunca. Então, ela olhou para o céu e disse: “Quero esquecer esse ano horrível que tive. Que no próximo ano eu possa ser feliz, pois nesse não fui.” Em seguida, entrou e foi se juntar aos “amigos”. O homem de quase 40 estava feliz naquela noite. Infelizmente não descobri seu nome. Havia conseguido uma promoção no trabalho e a partir do mês de janeiro seria gerente em sua empresa. Seu filho mais velho estava entrando para uma boa faculdade e finalmente a família poderia pagar um cursinho de inglês para a filha mais jovem nos Estados Unidos. Sua esposa também estava feliz, pois há muito tempo desejava uma reforma no apartamento e conseguiriam ainda no primeiro semestre do ano. Seus olhos brilhavam e ele somente agradeceu pelo maravilhoso ano, entrou na casa, pegou um copo de uísque e sentou-se com alguns homens que falavam sobre economia e política, agindo como se fosse um deles. Mas o rapaz de 21 anos era diferente de todos os outros que o acompanhavam. Não se sentia feliz, mas também não estava triste. Ele apenas não queria estar ali, no meio daquela confusão. Seu ano havia sido bom também, apesar de algumas preocupações. Ainda no início do ano, não sabia direito o que fazer. Já estava acostumado a sua nova vida, sabia que não poderia encontrar aquela garota novamente e finalmente começava entender que seu amor nunca havia sido correspondido como desejava. Lamentava, pois sabia que hoje Clarice o amava e somente sentia um grande pesar em não poder dizer “eu te amo” a ela. Conheceu pessoas interessantes, se envolveu com algumas delas e acabou se apaixonando novamente! Encontrou grandes amigos, fortaleceu uma amizade que já tinha certeza que não passaria de apenas “oi”. Estranho, mas algumas pessoas chegam assim, de repente, vindas de longe e ficam para sempre, tornando-se peças fundamentais em um jogo. Com absoluta sinceridade, acho que esse rapaz não seria ninguém sem essas pessoas, mesmo que em número reduzido, especialmente essa última, citada isoladamente, da qual ele gosta e admira muito. Assim como esse e outros amigos que são importantes, há um espaço destinado a uma pessoa, que tanto o tocou e o fez esquecer Clarice. Há um enorme desejo de passar o resto da vida com aquela pessoa que agora está longe. Gostaria que estivessem juntos para sempre, vendo o pôr do sol, caminhando pela orla da praia, indo ao cinema assistir a uma estreia e dividindo uma barra de chocolate, discutindo sobre vários assuntos, às vezes brigando de manhã para que depois de um longo dia se encontrem, com pedidos de perdão e um convite para dividir uma pizza e finalmente sendo feliz. Entretanto, mesmo que com uma história diferente, o rapaz comportou-se de maneira semelhante às outras duas pessoas. Olhou para cima e de seus olhos escorriam lágrimas, mas aparentemente eram lágrimas saudosistas. “Obrigado pelo ano que se encerra e que eu possa receber o carinho e afeto daqueles que cativei ao longo do ano. Queria ter uma caixinha semelhante àquela onde o Pequeno Príncipe guardava seu carneiro, pois poderia colocar todos lá dentro, tentando protegê-los e mantê-los-ia junto a mim. Que eu possa abraça-los sempre que desejar e sempre que tiverem necessidade de um abraço. Finalmente, que possa ter por perto todos que amo, especialmente aquela pessoa, dividindo uma barra de chocolate, indo a estreias no cinema, caminhando pela orla da praia, vendo pôr do sol e brigando comigo. Não preciso de muito, quero somente poder dizer e ouvir novamente je t’aime.” Enxugou as lágrimas e caminhou em direção aos outros dentro da casa. Seus olhos ainda estavam vermelhos, pois havia chorado muito. Tentei me aproximar, mas não tive coragem de perguntar o que lhe afligia. Lá dentro, éramos somente pessoas que jantariam juntas.