sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

The one that got away

- Eu encontrei amor em um lugar sem saída. Será mesmo? Não sei.
Naquela noite, ao encostar a cabeça no travesseiro, esperando que o sono viesse, Clara refletiu sobre sua vida. Suas escolhas, às vezes precipitadas, fizeram com que ela rolasse na cama por toda noite e o sono não veio. Sobre seus pensamentos, pesavam escolhas feitas há pouco tempo. Especificamente, Clara pensou em Matheus e no espaço que ele ocupava em seu coração. Ou melhor, na substituição que ela desejava que ele fizesse. Enquanto o sono não vinha, pensava no final de suas férias. Logo, sua rotina seria retomada. A vida de Clara era singular: ela se levantava sempre às 7 horas, colocava o lixo do lado de fora, na calçada, voltava para a cama e esperava até que alguém a convidasse para tomar café. Durante o almoço, estava sempre rodeada pelas mesmas pessoas – aliás, um número bem reduzido de transeuntes. No período da tarde, dedicava-se aos estudos, pois tinha o desejo de se tornar uma profissional bem sucedida em sua área. À noite, ia para a faculdade e após assistir a algumas aulas, voltava para casa. Estava sempre sozinha ou cercada por aquele reduzido número de pessoas. Após algumas horas, ainda sem sono, seu celular tocou sobre a mesinha, encostada ao lado da cama. Era uma mensagem de texto. O remetente? Matheus. Clara não se conteve e foi ler a mensagem, que era muito curta, porém objetiva. De seus olhos, duas lágrimas caíram, escorrendo pelo seu rosto. Matheus não ocuparia nenhum espaço em seu peito, tampouco substituiria outra pessoa. Aquela mensagem significou uma espécie de adeus entre eles. No entanto, não era compreensível tal situação, uma vez que ela, confusa como sempre, não entendia seus sentimentos. O que realmente ela queria? Voltou para a cama – a mensagem já estava apagada – e deitou-se novamente. Mais do que nunca, quis dormir. Dessa vez de um jeito diferente. Até que os pássaros cantassem novamente, anunciando uma nova estação! Quem sabe tudo não seria esquecido? Quem sabe sua vida não seria nova também? E se de repente ela visse que tudo havia sido um sonho? Valeria a pena tentar dormir... Porém, o sono não veio. Em uma tentativa desesperada, tomou dois comprimidos e voltou para a cama. Matheus começava a ser esquecido e seu outro – talvez único – amor voltou a sua mente. Suas lembranças eram boas naquele momento e, de súbito, Clara adormeceu.
- Sim, encontrei.
Na manhã seguinte Clara respirou aliviada. Nunca havia existido ninguém, além de seu anjo. Tudo havia sido um belo sonho. Sua vida não mudara e ela tinha certeza de que havia encontrado amor em um lugar sem saída. Matheus era apenas outro anjo que a fizera divagar por uma noite – somente uma noite – em uma tentativa de fugir de sua realidade. Matheus ficaria esquecido naquela turbulenta noite, enquanto sua vida a esperava lá fora. Seu único e verdadeiro anjo não a abandonaria, pois uma promessa, da qual ela nunca se esquecera, já havia sido feita.

Like an angel

Assim o conheci. Era um dia ensolarado, porém com algumas nuvens no céu. Mesmo assim, havia tédio naquele dia. Seriam somente mais umas horas comuns, senão tivesse ido perder tempo na internet. Entretanto naquele dia, definitivamente, não perdi tempo. Mas essas conversas que começam assim, de repente, nunca caminham para lugar nenhum mesmo. Com absoluta certeza, sairíamos daquele ambiente virtual e certamente nunca mais nos falaríamos e mais certo ainda seria que nunca nos veríamos. Não pude deixar de perceber que havia algo especial naquela pessoa; não era somente mais um buscando amizades na internet, tampouco gastando seu tempo, que, aliás, não existia. Mas tudo bem. No fundo, sentia que valeria a pena agir diferente naquele momento e permitir que o desconhecido começasse a fazer parte da minha vida. Já tinha dado certo uma vez, não tinha nada a perder e se ficasse frustrado, bastaria esquecer aquele dia. Mas novamente havia sido surpreendido. O desconhecido, dias depois, era mais que conhecido e me sentia seguro e protegido ao falar com ele. Estranho pensar que algumas pessoas vêm ao mundo com a missão de encontrar outras e fazer com que se sintam assim, como pequenos carneiros guardados em caixas pequenas, colocadas e trancadas dentro de uma gaveta. Mais estranho ainda é pensar que alguém que vive em uma realidade completamente diferente daquela que você acredita ser a sua é mais parecido com você do que qualquer outra pessoa. Entretanto, não é estranho acreditar que pessoas são como músicas: basta ouvir uma e se lembrar de alguém. Basta ouvir o barulho da chuva para se lembrar de algum momento em que raios e trovões dominavam a atmosfera terrestre e enquanto você chorava e se lamentava por alguma coisa, aquela pessoa estava lá, mesmo que distante através de uma janela virtual, tentando fazer com que você se sentisse menos infeliz.Como caracterizá-lo? Poderia dizer que é alto ou baixo, magro ou gordo, poderia dizer que tem cabelos longos ou que está quase sem cabelos, que tem olhos azuis, verdes, castanhos, enfim. Entretanto, isso me parece muito superficial para falar de alguém. Mas há uma coisa que posso dizer com toda certeza: existe ali um menino, preso a uma carcaça de adulto. Um menino que está em busca de sua felicidade, e que parece viver em uma espécie de terra do Nunca, ciente de que às vezes é preciso brincar de ser adulto, sem se esquecer da criança que adora Diamante Negro. Esse menino é capaz de cativar a todos com algo muito simples, seu sorriso, que é tão belo, capaz de libertar qualquer um de seu escafandro. Às vezes não é difícil encontrar pecadores nos subúrbios. Basta olhar através das janelas fechadas e poderá encontrar uma vizinha traindo seu marido, outra rejeitando seus filhos, algumas tramando contra seus amigos e finalmente aquelas que sabem agir distinguindo pecado de maldade. Mas basta olhar através das portas fechadas para encontrar também pessoas como aquela, dotadas de um sorriso que te cativa, e que te fazem sentir que deixar um espaço para o desconhecido nem sempre significa perder tempo. Essas pessoas podem te provar que existem sentimentos que crescem a cada dia, independente das condições impostas por extensões territoriais. Basta dizer “Je t’aime mon ami”! Isso será capaz de fazer com que a distância diminua.