quarta-feira, 11 de julho de 2012
Ato Final: Súplica
- Rita, acorde! Ele não te ama mais! Nunca te amou... Nunca desejou estar ao seu lado, como você deseja estar ao lado dele. Nunca foi capaz de fazer nenhuma concessão para que ficassem juntos! O mundo continua lá fora... Tudo passa, até o amor. Você não está sozinha; nunca esteve... Siga em frente, pois é isso que ele faz agora, do outro lado da cidade. Todos estão rindo de você e a culpa é sua. Você procurou pela infelicidade... Por que foi se apaixonar assim? Como pode entregar seu coração de tal maneira? Você havia passado por tudo isso há algum tempo e mesmo assim se deixou seduzir...
- Mas ele parecia gostar de mim! E se o amei, foi simplesmente pra tentar apagar a antiga dor que tomava conta do meu coração.
- Não! Isso não justifica! Seus amigos a alertaram e mesmo assim você o amou mais que a si mesma. Sua vida é essa porque você quer que assim seja. Que seja feita, então, a tua vontade!
- Para! Me deixe em paz! Não quero te ouvir mais... Eu sei que tudo que está acontecendo é porque eu desejei que assim fosse! Você não vai me perturbar mais...
- Você sabe como se livrar de todo esse sofrimento. Vale e pena continuar sorrindo durante o dia, servindo de acalento a seus amigos, se à noite, ao entrar em seu quarto, você chora feito uma criança? Que seja feita a minha vontade!
- Os lençóis já estão molhados pelo suor derramado de sua face, pobre criança! Você sabe que não é difícil encontrar pecadores pelas ruas. Basta olhar através das janelas e ver que eles existem. Mas, qual o seu pecado, pobre Rita? O que você fez de errado?Rita não havia pecado, mas apenas amado demasiadamente. Rita não tinha que pedir perdão, mas sim absolver o Judas ao qual ela estava presa.
- Traidor!
Mas, o que ela podia fazer se estava enamorada por aquele Judas? Ela era aquele Judas e ainda não tinha percebido isso.
- Judas! Traidor! Beijou minha face e me atirou em um abismo cujo fim parece mais escuro que seu coração!
- Acalme-se, criança! Não sou Judas. Apenas quero que saiba que gosto muito de você. Não posso dizer que te amo, mas você é especial para mim. Quero que sejamos um só, como a raposa e o príncipe. Você me cativou e...
- Chega! Para, por favor! Eu não quero te ouvir mais... Me deixe em paz. Eu apenas quero dormir e esquecer tudo que vivi. Vá embora! Que agora seja feita a minha vontade!
- Vale e pena continuar sorrindo durante o dia, servindo de acalento a seus amigos, se à noite, ao entrar em seu quarto, você chora feito uma criança? Que seja feita a minha vontade!
- Eu te amo, Rita! Que seja feita a nossa vontade!
E então, Rita acordou. Seu quarto estava cheio de folhas secas, espalhadas por todo o ambiente. Era fim de outono e o inverno batia às portas daquelas pobres pessoas do pequeno vilarejo. Rita sentia um pouco de frio e ainda estava descontrolada, devido aos últimos acontecimentos, revividos em seus pesadelos. Seu quarto pareceu pequeno diante de todo sofrimento que ela vinha enfrentando, sozinha. Seus amigos estavam ocupados demais para lhe dar atenção. Caminhou até a cozinha, pegou uma xícara de café e subiu para o último andar do prédio onde morava. Enquanto esperava o elevador, tudo que vivera durante aquela noite passava diante de seus olhos. Aquelas vozes! Quem eram aquelas pessoas? Por que aquilo tudo? Rita procurava, em vão, entender tudo que se passava. Entrou no elevador e enquanto subia, lembrou-se de Guilherme. Seu peito doía, enquanto de seus olhos brotavam lágrimas. E então, Rita lembrou-se mais uma vez do que havia ouvido durante a noite:
- Você sabe como se livrar de todo esse sofrimento. Vale e pena continuar sorrindo durante o dia, servindo de acalento a seus amigos, se à noite, ao entrar em seu quarto, você chora feito uma criança? Que seja feita a minha vontade!
Pálida, ela chegou ao último andar. A xícara de café já estava vazia. Rita caminhou em direção à sacada. Foi então, que se lembrou de uma das vozes que havia ouvido durante a noite. Era Guilherme.
- Quero que sejamos um só, como a raposa e o príncipe. Você me cativou e...
Rita, finalmente, compreendeu o que ele queria e agora seu sonho fazia sentido.
- Sim, mon ange. Perdoo-te! Você não teve culpa de nada. O erro foi meu! Tudo que você me dizia, as razões para não ficarmos juntos, agora fazem sentido. E tudo que deixamos de viver, ficará para uma outra vida, onde eu possa ser sua. Quem sabe eu não consiga te fazer ficar? - E cada vez a beira do abismo era mais próxima a ela. Eu te amo e para sempre ficarei ao seu lado! Sopre-me um último beijo...
A xícara caiu e espatifou-se contra um carro que passava pela rua. Em seguida, Rita encontrou amor em um lugar sem saída, juntando-se aos cacos da porcelana, fazendo parte daqueles estilhaços que foram arremessados contra o vento.
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