quinta-feira, 18 de abril de 2013
O travesseiro
"Picked all my weeds but kept the flowers."Hoje resolvi trocar meu travesseiro. Tomei essa decisão após ouvir, da boca de minha mãe, que eu ainda dormia com o mesmo desde criança. Ela tinha razão e já passava da hora de comprar outro. Fui até a loja, testei todos que estavam em estoque e, finalmente, escolhi um novo. Voltei para casa e, todo satisfeito com a compra, mostrei a minha mãe que já havia providenciado outro travesseiro. Foi então que ela me surpreendeu com uma pergunta: -O que fazer com seu velho travesseiro? Não havia pensado no que fazer com ele e foi então que percebi o quanto um simples pedaço de pano com algumas espumas estavam ligados a mim.Lembrei-me, então, daquela tarde sombria de agosto em que ventava muito. Meu pai havia pedido que eu fosse ao armazém - logo na esquina de minha antiga casa. Estava assistindo a algum desenho animado e, chateado por ter que perder o final da sessão, sai de casa resmungando alguma coisa. No meio do caminho, após um tropeção, cai e qual foi a minha surpresa! O resultado? Havia quebrado a perna. Fui ao hospital, o médico me atendeu, colocou um gesso e eu voltei para casa. Passei um bom tempo em repouso e, como meus pais trabalhavam e meu irmão vivia na rua, minha única companhia era meu travesseiro. Fiel escudeiro, eu diria. Servia-me de almofada para os pés, quando eu me cansava de ficar deitado. Em seguida, após me cansar de ficar sentado, voltava a deitar e era sobre ele que eu me recostava. Bons tempos aqueles, quando minhas únicas preocupações eram em relação ao meu gesso... Adiante, meus olhos se encheram de lágrimas novamente. Ela era uma memória recente e, sobre meu travesseiro, derramei um rio de lágrimas por alguém que nem se quer soube disso. Antes, dividi confidências, falei de juramentos e, a ele, contei como Luísa havia chegado. Quantos planos, meu Deus! Quantos sonhos construídos juntos! Promessas sempre são feitas, mas nem sempre são cumpridas. E, assim como a mais violenta tempestade, tudo se vai. Do mesmo modo que Luísa chegou, saiu. Sem nem bater a porta. Como disse, aquela era uma memória recente, que estava sendo, aos poucos, esquecida. Naquele momento, me fiz prisioneiro do meu próprio escafandro. Agradeço-te, mon Petit Prince, por ter feito parte desse processo de esquecimento, libertando-me daquela prisão, cujo único vigilante sempre fora eu mesmo. Tardes frias sempre me marcaram de algum modo. Você chegou em uma delas. Lembra? E, felizmente, me fez ficar, quando eu já estava atrasado para um compromisso. O que poderia significar perder 10 minutos ou uma hora perto do que estava por vir? Enfim, acho que palavras não bastariam para que eu pudesse expressar o quanto representa o fato de você ter me feito sua rosa. Um abraço ou um beijo, talvez. Talvez. Mais uma vez, nesse momento, meu já velho travesseiro estava comigo. Compartilhou de minhas alegrias, ao me ouvir falar sobre o pequeno-grande ser que eu havia conhecido no início de julho, antes daquelas férias de 2011. E, infelizmente, também amparou-me quando tudo chegou ao fim, em mais uma tarde cinzenta e tempestuosa. Ah! Mon petit bonhomme, petit bonhomme j'aime entendre ce rire! Voltando à pergunta feita por minha mãe, já estava decidido e queimaria o travesseiro. Doeu muito ver essas e outras histórias sendo consumidas pelo fogo e, aos poucos, esquecidas dentro de mim. Minutos depois, apenas as cinzas no chão e uma sensação estranha que não sei precisar. Mesmo assim, senti-me confortável com aquela situação, pois sabia que tudo não estava resumido àquele momento e, certamente, existiria a saudade, provando-me que coisas boas tinham sido vividas. Não acredito que um travesseiro poderá substituir outro (e o mesmo acontece com as pessoas, não?). Entretanto, novas histórias começam a se desenhar, novas confidências serão feitas e novas lágrimas, enfim, serão derramadas. Afinal, nada é por acaso. Tudo está escrito.
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