domingo, 17 de outubro de 2010
Mariana
Desejou gritar e mostrar a todos que estava ali, que existia.
Infelizmente, a realidade dela é outra, diferente da realidade dos outros.
Os outros vivem! Os outros sorriem! Os outros amam!
E Mariana? Simplesmente pensa que vive, pensa que sorri. Simplesmente pensa que ama.
Mas existe algo em comum entre Mariana e os demais: todos choram!
Os outros choram por frustrações, coisas não acabadas, alguns vinténs perdidos.
Mariana chora, enquanto seu peito sangra pela ausência de alguns companheiros.
Chora por não compreender o que querem dela. Chora por não saber o que faz ali, não entender o motivo de não se libertar da prisão na qual a colocaram. Chora porque sabe que precisa ser ouvida, mas sabe que os ouvidos do mundo estão fechados pra ela. Precisa de conselhos, mas não existe ser capaz de vomitar algo do qual ela possa tirar algum proveito.
Os motivos? Ser diferente ou ser apenas mais uma no meio das estrelas apagadas? Ninguém sabe... Nem Mariana...
Amiúde, Mariana acorda assim. Hoje acordou como de costume, soluçando. Havia chorado a noite toda, enquanto a chuva caía lá fora. Repetiu alguns versos, Camões talvez, e sentiu que mais uma vez estava sozinha. Seus filhos haviam saído para ter com os amigos e ver o sol radiante que iluminava aquela manhã.
Como de costume, abriu as janelas, foi até o jardim, colheu algumas flores e entrou novamente, sem nem ser notada pelos vizinhos.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Compaixão
O que podemos ter em comum? A ânsia de partir? Não sei... Procuro entender... O que pedir ao garçon? Tequila? Conhaque? Quem sabe um vinho...
Não! O vinho me traz a memória cenas que prefiro que permaneçam esquecidas em algum lugar perdido de meu cérebro, como a imagem dela...
Uma pergunta apenas: O que vai beber?
E desejando esquecer a dor que trago no peito, respondo sem hesitar: cachaça.
Após algumas doses, minha cabeça dá voltas e vejo refletido em um jovem casal um retrato do que vivi. Será que realmente vivi ou não passam de devaneios? A essa altura, como um animal irracional, não consigo pensar e saber quem ou o que sou. Sinto em minhas veias, correndo junto com meu sangue, um intenso desejo de acordar. Anseio por liberdade. Anseio por algo que não sei se me é permitido. E no auge de minha embriaguez, incomodo o jovem casal. Éramos os únicos no bar.
- Seu bêbado! - Foram as palavras vomitadas pelos dois, em coro. Eu estava errado? Só queria que eles soubessem que eu estava ali, queria que me ouvissem.
São cinco ou seis horas e parece me que o bar vai fechar.
Preciso sair, atravessar a cidade e chegar em casa. Não sei se consigo. Do lado de fora, sentado na calçada, apenas um cigarro e alguns cães. O caos domina meus pensamentos e não consigo raciocinar.
De súbito, caio no sono e aquela cena que havia presenciado no bar parece estar se repetindo na minha frente!
Após um profundo mergulho no obscuro esquecimento, proporcionado pelo álcool que ainda corre em minhas veias, despertei.
Eu era apenas mais um, sentado na calçada. O velho all star, jeans gasto e desbotado pelo tempo, rodeado por cães e com algumas moedas no bolso.
Já era dia, mas estranhamente sentia uma vontade inexplicável de ver estrelas. Ah! Como eu queria ver estrelas!
Há!
Sábado. Ou melhor, noite de sábado.
Como sempre, vago no caos. Perdido em meus pensamentos, questiono-me?
Não sei se vale a pena me perguntar o que parece não tão obscuro, mas com certeza não evidente.
Confusão? Quem sabe... Ilusão. Acho que assim defino melhor.
O que faço aqui? Como conviver com pessoas que são opostas a tudo que me parece normal?
Confusão... Embriaguez... Alucinação.
Algumas milhas me separam daquilo que um dia desejei ter.
E tive. Por algumas horas apenas, mas tive.
Acender cigarros, abrir garrafas. Embriagar-me, contaminar-me com a mesma droga
que eles usam? Não sei. Nem sei que drogas usam. E não falo de alucinógenos.
Nesse momento, continuam como animais. Selvagens em sua sociedade, mas livres, se estivessem em seu habitat natural. Vergonha? Só para eles.
E novamente, pergunto-me: o que faço aqui?
O que buscam? Sim, esses animais. O que desejam? Liberdade? Não encontraram.
Ou não encontrarão? Agora, jogo com palavras. Palavras vagas, mas que transcendem a um simples léxico e mostram a todos o que sinto. Mostram o quanto estou confuso.
Como justificar? Não sei... Aliás, acho que desisti de entender.
Quem sabe algum dia, essa utopia poderá ser explicada.
Um novo dia se aproxima. As pessoas simplesmente irão perceber o quão besta
é a vida e todos almejarão, como eu, apenas ver estrelas.
Sem Título
Para. Não para. Dispara. Diz para. Repara. Não para.
Pânico. Tensão. Distensão. Alucinação.
Devaneios provocados pela alucinação,
Refletem o caos, gerado pela ânsia de despertar e ver!
Ver reflexos, reflexos solares, fluxos solares.
Para. Não para. Dispara. Diz para. Repara. Não para.
Reflexos! Palavras! Verbos intransitivos e transitivos!
Predominante? Somente o desejo de ver!
Palavras se cruzam, se aglutinam e mais do mesmo.
O caos reflete e dessa vez os fluxos são reflexos.
Os verbos! Sim, eles tropeçam em sensações!
Caem! Circundam no absoluto nada!
Para. Não para. Dispara. Diz para. Repara. Não para.
O caos, outrora citado, não mais domina!
Ele NÃO PARA. NÃO DISPARA. NÃO DIZ PARA.
NÃO REPARA.
Ele simplesmente PARA.
Ontem não dormi. Queria ver estrelas, ver reflexos!
E pude perceber o quão besta é o mundo.
Amanhecer
O dia começou de maneira mais tranquila possível. O banco estava no mesmo lugar de sempre, o sol brilhava como todas as manhãs e os vizinhos trocavam olhares dizendo “bom-dia”, cordialmente.
As horas seguiam e o que todos almejavam era o fim daquela manhã infernal de domingo. Chegou a hora do almoço e todos, como de costume, não iam almoçar fora. Uns faziam uma singela refeição, outros simplesmente não comiam e poucos dividiam uma massa simples, feita a quatro mãos.
Após o almoço, uns conversavam alto, outro simplesmente ignoravam a existência de todos ao redor e ainda havia aqueles que simplesmente existiam; eram cordiais com todos os habitantes medíocres e não medíocres que estavam presentes ali.
A tarde passou com a mesma velocidade que um raio, lançado dos céus, atinge o solo. Os falantes continuavam falando alto, os que ignoravam continuavam com sua labuta diária e os que simplesmente existiam, continuavam existindo. Mas geralmente esse dia proporciona a todos sessões de nostalgia. Uns relembram atos há muito esquecido, outros discutem sobre temas mais abstratos possíveis.
A perturbação predomina durante a noite e o caos toma conta daquelas pobres vidas: ninguém conversa, ninguém discute, mas com certeza há aqueles que vivem. Ou simplesmente acreditam nisso.
Sentimentos que não são passiveis de explicação tomam conta de uma parcela mínima de “viventes” ou “sobreviventes”, que neste ponto se encontram reunidos na sala ou no quarto, aguardando ansiosos o fim de mais um dia. Esperam aflitos um novo amanhecer, onde possivelmente, o sol brilhará, o banco vai estar lá e os vizinhos , simplesmente irão trocar olhares.