Hoje resolvi brincar de fingir. Procurei criar uma realidade diferente daquela a qual me coloquei.
Para começar, simulei uma volta ao passado, buscando conjunção com o que fora e com o que vivera durante a infância. Encontrei queridos amigos, pessoas que nunca mais vi e nem sei se ainda vivem. Não eram como naquele tempo; seus corpos minúsculos deram lugar a corpos transeuntes que não pude seguir. Mas estranhamente suas infantilidades eram as mesma. Corriam feito animais selvagens, eram crianças sujas e nada sabiam sobre a vida. Eram pequenas mariposas, presas em escafandros e ninguém sabia como haviam sido postas lá. Nem mesmo os adultos.
Sai daquele estágio e estava de volta ao meu próprio escafandro. Não sabia o que fazer e senti uma forte pressão na cabeça. Parecia que alguém me colocava na água. Acordei (ou não) e era um adolescente de novo. Sentia no peito as mesmas emoções que senti quando descobri que algumas pessoas fazem da vida uma eterna peça teatral e passam a vida "atuando". Não sei se o melhor verbo é esse, mas acredito que é o que mais corrobora com a semântica textual presente.
Mas enfim. Nesses devaneios, vivenciei momentos que não consigo descrever e pude rever aquela que dominou e acho que domina meu pensamento. Como de costume, sua beleza cegava meus olhos e quase não acreditava no que estava diante de mim. Suas palavras não mais mortificavam me. Agora os outros eram mortificados por suas doces expressões e sua cândida face. Era feliz. Finalmente estava feliz.
Novamente estava em meu escafandro. Sentia me como Jean Dominique Bauby. Não podia me mover, pois meu escafandro quase obstruia minha respiração. Em uma última quimera fui levado a minha realidade. Eu era mais um, no meio de uma multidão de viventes, de pessoas estranhas, gente diferente de tudo que me parece comum. Acho que o problema era comigo, pois entre eles pareciam normais. Conversavam, riam em voz alta, incomodavam uns aos outros, tropeçavam em suas próprias palavras, pagavam um preço alto para serem vistos e quase nunca eram notados. Esses viventes não conheciam a realidade de uma borboleta e viviam em um imenso escafandro todos juntos. Enquanto isso, eu sangrava em uma calçada, vagava pelo absoluto caos de meus pensamentos e ninguém podia me ver gritando, clamando compaixão talvez. Somente isso.
Fiquei imaginando você na cama, no quarto da sé voltando a reviver suas reminiscências da infância.
ResponderExcluirMenino homem, e isso é lindo.
Mais uma vez: Parabéns.