domingo, 30 de dezembro de 2012

Sentir saudade

Torrencial, a chuva cai do lado de fora do meu apartamento. Ao meu lado, apenas Machado de Assis e uma xícara de café me fazem companhia. Há dias chove sem parar e, estranhamente, não me sinto confortável com essa situação. Mais alguns capítulos e doses elevadas de cafeína e ainda não sei se Capitu traiu Bentinho. A chuva, subitamente, resolveu cessar.
Do lado de fora, pela primeira vez em muitos dias, pude ver os primeiros raios de sol. Uma forte claridade me atordoava em meu quarto. Caminhei em direção à janela para ver se algum arco-íris havia se formado. Em meio ao barulho das buzinas dos carros e da gritaria de algumas mulheres, alguns homens voltavam ao trabalho, com martelos e mais algumas ferramentas em mãos. Havia algum tempo desde que a obra na casa em frente tinha sido interrompida. De súbito, estava sentado na cadeira de balanço, que ficava na varanda, obscura e sombria, daquele velho apartamento. Machado de Assis não mais me servia de companhia. Apenas mais uma xícara de café. Foi então que notei que somente três homens trabalhavam naquela casa. Era uma reforma simples, mas devido ao meu total interesse pelo que acontece ao meu redor, não imaginei que assim fosse.
Meu apartamento havia sido construído de maneira singular. Todos os cômodos foram dispostos para que as portas não ficassem umas em frente às outras. As quatro janelas foram, milimetricamente, alinhadas. Na sala, havia apenas uma estante com todos os livros que eu havia conseguido comprar ao longo de minha vida. Não me preocupava em ter sofás, mesas de jantar ou poltronas, pois quase nunca recebia visitas. A casa ao lado também era singular e, pela primeira vez, reparei em cada detalhe daquela antiga construção.
Mais uma marretada e pude ver que por trás de todo aquele reboque de cimento, havia uma parede azul. O azul me fascina! É a cor do céu, a cor refletida pelas águas do mar e a cor dos olhos de alguém que um dia amei. Sinto-me desesperado! Parece que foi ontem que esse azul me deixou. Percebo que faltou-me conjugar esse verbo que, a alguns, é muito caro. Hoje, lamento e choro não poder olhar ao meu redor e, como era naquela antiga parede, ver-me, como um reflexo, através daqueles olhos azuis.
- Por que? Preciso somente entender quais são os verdadeiros motivos que a levaram a fazer isso. Eu não fui um bom marido? Um bom pai, talvez? Responda!
- Não, você é um excelente marido e não tenho do que me queixar. Apenas não sei explicar como me deixei envolver. Eu sinto muito...
- Vagabunda!
Se fechar os olhos, ainda sou capaz de ouvir os dedos e a palma da mão de meu pai, estralando contra o rosto de minha mãe. Indo mais longe, sou capaz de ouvir os gritos dela, implorando por piedade, pedindo perdão. Ele não fora um homem agressivo e se, naquele momento, estava sendo, era em uma tentativa de redimir-se e de fazer com que minha mãe se redimisse diante do próprio pecado.
Amou daquela vez como se fosse o último... Beijou sua mulher como se fosse a única... E cada filho seu como se fosse o pródigo... E atravessou a rua com seu passo bêbado...
Dois dias depois encontrei meu pai sobre o piano. Em seu peito já não batia aquele coração que tanto havia sofrido por minha mãe. Suas mãos, cheias de calos devido aos anos de trabalho, não mais me acariciariam à noite. Elas haviam sido usadas pela última vez apenas para abrir um frasco. Não chorei, apenas o abracei sem nada dizer. Minha mãe, fingindo ser forte, esperou até que o dia amanhecesse para que pudéssemos avisar aos entes sobre o ocorrido. Até hoje culpa-se pelo ato desesperado de meu pai. Ainda posso ouvi-lo pela casa, me contando sobre como havia sido construir mais um prédio, terminar mais uma casa e, ao ver que me assustava, pois temia que ele pudesse cair daqueles andaimes enormes, tentava me acalmar com sorvetes de pistache.
E tropeçou no céu como se ouvisse música... E flutuou no ar como se fosse sábado... E se acabou no chão feito um pacote tímido... Agonizou no meio do passeio náufrago... Morreu na contramão atrapalhando o público...
Mais uma parede no chão e novos tijolos eram postos, um a um. Aquela parede representava o novo, o estranho. É engraçado como o estranho causa desconforto... Se bem que quando me lembro daquela tarde, em que tudo me parecia estranho, não me sinto desconfortável. Estava, sim, em um lugar que não conhecia, vivendo algo que não sei, sinceramente, até hoje se era para eu ter vivido. Meu defeito pode ter sido esse: a dúvida. Sim, a mesma dúvida, talvez, que assola os leitores machadianos. Há algum tempo, mas seus olhos de ressaca não saem dos meus.
Subiu a construção como se fosse máquina... Ergueu no patamar quatro paredes sólidas... Tijolo com tijolo num desenho mágico... Seus olhos embotados de cimento e lágrima...
- Hoje é um dia especial, pelo menos para mim. Ano passado, na segunda “quarta-feira” do mês de novembro, estávamos juntos e esse dia se tornaria um dos mais especiais em minha vida. Lembra? Parece que foi ontem que fomos ao cinema assistir A Pele que Habito. Parece que foi ontem que comemos torta de Chocolate no Bob’s (eu ainda tenho as notas fiscais da lanchonete e também o bilhetinho do cinema). Sinto muito a sua falta! Tu seras toujours mon amour!
- Ainda não tenho as palavras certas para lhe responder. Sempre fui muito ruim para expressar sentimentos e, talvez, por isso não sou capaz de escrever tão bem como você. É fantástico como você guardou esse momento com tanta exatidão. Significa que realmente foi bom pra você e na verdade foi ótimo para mim também. Acho que aquele dia deveria ter se repetido mais e mais vezes. Entretanto, infelizmente, as coisas nem sempre são como queremos. Você é tão especial que sinto raiva de não poder estar sempre em contato com você. Tu es ma belle et tendre rose! Je t'aime à tout jamais.
E essas palavras nunca tiveram tanto sentido: amou daquela vez como se fosse a última.

Nenhum comentário:

Postar um comentário