quinta-feira, 5 de junho de 2014
Unconditional: Foi Apenas um Sonho
Júlia fechou-se para a vida, cercando-se em uma redoma de vidro. Seu coração havia se fechado aos olhos do mundo, devido às suas últimas experiências, e, principalmente, aos últimos sentimentos. Obviamente, após tantos anos, tentativas foram feitas. Pobre Júlia! Todas em vão. Nada se assemelharia ao que estava por vir, pois a redoma estava para ser quebrada e ninguém seria como aquele Pequeno-Grande Príncipe.
Tudo começou em um final de tarde, quando tédio e preguiça de voltar aos estudos mesclaram-se, fazendo com que Júlia abandonasse seus hábitos. Perdido entre almas imundas e impuras, ela encontrou o Pequeno-Grande Príncipe procurando por sua rosa. Diferentemente da história já conhecida, não pediu que lhe desenhassem um carneiro, mas sim clamou por atenção. Aos poucos, foi mostrando que pede somente o que pode dar, retribuindo carinho e amor. Júlia, que há muito não se sentia assim, cedeu espaço e deixou que ele entrasse, sem receios. Seu coração havia se enchido de esperança e ela sabia que estava apaixonando-se novamente. Nesse momento, começou a se questionar sobre o que realmente ela sentia e concebia como “amor”. Ah, semântica danada! Que substantivo repleto de significados! Para alguns, é algo que deve ser expresso com gestos, palavras. Para ela, é algo que desconforta, causa inquietação, desassossega, fragiliza e ao mesmo tempo fortalece, deixando-nos com uma sensação de “não sei viver sem você”. O amor não é para ser dito, mas sim sentido. E somente quando sentido pode transcender ao léxico e atingir outros níveis, que, com certeza, são inexplicáveis.
Como descrever, então, o causador de todo esse desassossego? Comecemos pelo mais simples: os olhos. Machado de Assis que me perdoe, mas não há “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, tampouco “olhos de ressaca” capazes de defini-los, pois os dele são únicos, eu diria. Transmitem paz e sensação de alívio, de que tudo vai ficar bem. Há algum tempo, venho defendendo a ideia de que as mãos de uma pessoa podem defini-la. Sempre que conheço alguém, peço para ver as mãos, pois pessoas bonitas têm mãos bonitas e, por sua vez, as feias têm mãos feias. Júlia concorda com essa ideia e diz que as mãos do Pequeno-Grande Príncipe são maravilhosas, pois representam alguém que luta por seus objetivos, que não se acomoda, que corre atrás de seus sonhos e que anseia pelo melhor, independente dos empecilhos. Mãos de um fighter! O que falar do sorriso, mesmo que visto somente em fotos? Um reflexo do coração, talvez. E se o coração é bom, os reflexos não podem ser diferentes. Há, nesse sorriso, um quê de inocência e pureza. Isso faz com que toda imensidão daquele coração que busca somente por amor fique estampada em um rosto, tornando-o angelical, com olhos brilhantes, capazes de derreter a mais alta montanha de gelo. Além disso, ele é capaz de despertar gargalhadas em momentos tão duros, como o fato de dizer adeus a pessoas queridas e deixar para trás uma vida tão almejada. Além disso, assim como o amor, sabe ser paciente e entender, por mais difícil que possa parecer, as necessidades dos outros. Entre suas virtudes, está o mais nobre dos gestos: sabe perdoar.
Foram alguns anos em busca de algo que me desconfortasse (agora falo por mim, mesclando-me, novamente, à Júlia) and I finally found my way. Enfim, retiro-lhe o rótulo de Pequeno-Grande Príncipe, pois este já fora encontrado há dois anos, quando supus que seria feliz. Em pouco tempo você conseguiu ser mais do que isso e hoje não tenho dúvidas: você é meu grande Anjo e eu continuo sendo tua rosa, cativada desde o primeiro “oi”. O tempo, senhor de todo destino, nos pregou mais uma peça, não é? Foi ele o ator principal em minha tragédia, assim como o foi em minha busca pelo desconfortante, e, agora, ele atua novamente, afastando-me de ti. Infelizmente, não podemos mudar o que já está traçado, o que está desenhado. Mas podemos aprimorar o rascunho e acredito que o que vivemos nada mais é do que esse rascunho. Tenho a certeza de que ainda seremos um só e nossas almas se encontrarão em paz muito em breve. Os percalços são postos diante de nós para que possamos ver o quão forte podemos ser e que podemos superá-los, com sorrisos semelhantes ao seu, quando se junta às suas crianças, tornando-se uma delas, de maneira tão inocente e pura. Esses meses serão apenas mais uma prova de que nada é por acaso. Tudo está escrito.
Naquela tarde Júlia tinha tomado alguns comprimidos, pois uma dor de cabeça a tomava com a mesma voracidade dos urubus, ao se apoderarem de suas presas. Logo sua mãe bateu à porta do quarto, avisando-lhe de que o jantar estava pronto. Ainda assustada com tudo que havia acontecido durante aquela tarde, levantou-se da cama e caminhou em direção a uma velha penteadeira que ficava em um canto do quarto. Sentou-se e pegou um livro que estava na primeira gaveta. Eram poesias de Drummond, um de seus autores preferidos. Abriu-o, aleatoriamente, e procurou encontrar, na poesia, explicação para o que estava sentindo. Entendam, caros leitores, como acharem adequado, mas a poesia escolhida fora “Ausência”. Após ler e reler as mesmas estrofes por algumas vezes, esboçou um sorriso, fechou o livro e voltou para a cama. Sua mãe já havia voltado àquele quarto, mas Júlia não a atendeu. Pelos próximos dias (e quem sabe, talvez, para sempre?) não atenderia a ninguém, pois ainda vivia sob aquele encanto. Assim construiu-se e desfez-se o paraíso. Assim Júlia adormeceu novamente e divagou em busca do que pensava ter encontrado.
terça-feira, 8 de abril de 2014
Hoje eu não quero voltar sozinho
Qual o segredo da felicidade? Do que as pessoas precisam para que a encontrem? Apenas uma companhia para uma noite? Um bom emprego e uma carreira bem sucedida? Um marido e muitos filhos? Vamos aos fatos.
Quando amanhece, sua companhia vai embora. Assim que o sol nasce, os primeiros raios fazem com que você perceba que nunca estivera tão sozinho. Por que isso acontece? É a mesma coisa para todos nós. Tentamos não nos aproximar muito das pessoas que vivem próximas. É fácil dar a elas um aceno educado e depois perguntar o que há de errado. Possivelmente seria mais seguro continuar andando do que se envolver... É fato que toda noite, antes de dormirmos, mentimos para nós mesmos, em desespero, numa vã esperança de que na manhã seguinte tudo será verdade. Mas amanhece e temos apenas que acreditar no novo dia, anunciando que nada mudara e que você ainda não encontrou a felicidade.
Após anos dedicados à formação profissional, você, finalmente, se vê sendo reconhecido! Prêmios, gratificações, felicitações, torna-se alvo de inveja, fonte de inspiração. Mas de nada adianta, pois, ao entrar em casa e ver que a mesa está posta para o jantar você encontra apenas um prato. Família? Você não teria tempo para educar seus filhos. Não teria tempo para levá-los ao parque e mostrar o quanto é bonito o abrir de asas de uma borboleta. Não teria paciência para ensiná-los, para amá-los. Mas também, você não vai ouvi-los contar sobre o primeiro beijo, sobre a primeira namoradinha, sobre o futebol na escola e nem vai ouvir o “eu te amo” mais sincero que alguém poderia lhe dizer.
Você pode não ter uma carreira, nem querer apenas uma companhia a cada noite, mas sim optar por um sonho e construir seu mundo de bonecas. O juramento é muito simples, realmente. Os que o fazem, prometem estar juntos na alegria e na tristeza, na riqueza ou na pobreza, na saúde e na doença, honrando e amando, renunciando a todos os outros até que algo os separe. Realmente, o juramento é bem simples. Encontrar alguém que esteja à altura é a parte difícil. O príncipe encantado chegou num cavalo branco! Ele era lindo e as promessas mais bonitas ainda. Era doce, gentil e, talvez, pela primeira vez você tenha encontrado a felicidade. Será? Não acredito, pois pessoas são criaturas bem complicadas e não é difícil encontrar pecadores. Eles estão por aí, atrás de cada porta. Alguns são capazes de grandes atos de caridade enquanto outros traem da pior maneira possível.
Certas pessoas podem conciliar tudo isso e encontrar a tão sonhada felicidade. Mas vale à pena? Não seria melhor deixar que as lágrimas escorressem pelo seu rosto, lavando-o por inteiro? Há dentro de nós uma batalha constante entre anjos de nossa natureza e a tentação de nossos demônios interiores. Muitas vezes, o único caminho para iluminar a escuridão causada por essa batalha é deixar brilhar a luz da compaixão.
Sabe o que é mais perturbador? É ver que todos cometem seus pecados motivados pelo amor. É impossível compreender o quão poderoso ele é. Algumas vezes, o amor é capaz de nos dar forças para que possamos enfrentar momentos difíceis ou nos motiva a fazer sacrifícios extraordinários. Há algum tempo, li que o amor pode forçar pessoas decentes a cometer feitos obscuros ou pode obrigar pessoas comuns a trazer à tona suas verdades mais profundas. É incrível, mas mesmo depois de morrermos, o amor ainda sobrevive em nossas memórias. O fato é que todos nós buscamos, de alguma forma, o amor (ou a felicidade). Entretanto, aqueles que o encontram, possivelmente desejariam não tê-lo.
sábado, 1 de março de 2014
Carpe Diem
Tempo. Para alguns, o melhor remédio para que as piores feridas possam cicatrizar. Para outros, a mais cruel das muitas formas de sofrimento.
– Espere, rapaz! Uma hora acontece e você encontra o que tanto procura.
Não, eu não encontrarei. Não sou capaz de me permitir arriscar mais uma vez. Há muito tempo jurei a mim que não sofreria de novo. Infelizmente não posso mandar em meu coração, apesar de acreditar que o cérebro é mais forte que aquele pobre pulsante. Há pouco tempo, jurei a mim que tinha encontrado o que tanto busco. Mas enganei-me e, sentado na praia, chorei ao lembrar-me de todos aqueles longos anos.
Não se preocupe, meu bom Principezinho! As lágrimas já não doem mais. Aliás, todas as lágrimas que derramei por você foram como essas, misturadas à saudade e às lembranças daqueles bons anos. Com você aprendi que eu não posso ter agora o que me foi destinado para amanhã. Agarro-me a isso sempre que penso em desistir. Agarro-me àquela mensagem de texto no celular, em que você desejou-me “Feliz Dia das Crianças”. Lembro-me, com ternura, daquela tarde, quando vi você se conter diante dos enfeites de Natal, em todas as lojas, para que eu não me surpreendesse com sua “infantilidade”. Seus olhos brilhavam diante daquelas luzes e guirlandas e, naquele momento, o conheci de verdade, ao ver que você traz consigo toda a inocência que sempre busquei para mim. Naquele momento, descobri o real significado de um sentimento muitas vezes esquecido. Sentados em uma lanchonete, olhávamos um para o outro, sem medo do que pudesse acontecer e sentia-me protegido novamente, amando-te como nunca havia feito antes.
Lembro-me de sua chegada como se tivesse sido há dois dias... Como a mais suave das brisas, você soprou-me aquelas palavras e seu perfume espalhou-se pelo meu quarto. Naquela tarde fria, dividimos os mesmos gostos, as mesmas alegrias e tristezas, os mesmos medos, as mesmas músicas, os mesmos chocolates, o mesmo perfume e dividimos, finalmente, uma vida. Até hoje consigo sentir o gosto do seu beijo ao comer um pedaço de chocolate meio amargo. Seu abraço permanece vivo e é sentido a cada manhã, quando levanto-me e olho para aqueles bilhetes de cinema. Sua voz ecoa em minha mente toda vez em que ouço as músicas que você cantou para mim, principalmente as francesas. Ainda sinto sua presença todas as noites, quando, antes de dormir, imagino como teria sido se eu tivesse arriscado mais. Continuo imaginando, planejando, pois sei que ainda há muito para vivermos. Tardes como as que já tivemos deveriam ter se repetido. Tenho a certeza de que em breve serão constantes e, novamente à beira mar, seremos um só. Amo-te, mon ange. Amo-te.
domingo, 9 de fevereiro de 2014
O último anjo
Hoje o dia não foi muito comum. Acordei tarde, esperando uma mensagem que não chegou. Levantei-me e passei o dia me arrastando até que chegasse, novamente, a hora de dormir. Ultimamente tenho me sentido assim: um vegetal, que não sabe a que horas, nem quando abandonará essa vida; uma lagarta, presa a um casulo, sem saber quando a primavera chegará e minhas lindas asas sairão a colorir os céus; um prisioneiro em meu próprio escafandro. Escrever, para mim, sempre foi uma espécie de fuga. Pelas palavras, conhecia outros mundos, me encontrava com tanta gente e nos conectávamos como nunca. Mas agora me abandonaram e não encontro vocabulário que seja capaz de significar o que está preso dentro do meu escafandro, dentro do meu casulo ou em minhas raízes vegetais. Porém, não é só com elas que tenho tido essa má sorte, esse abandono.
Algumas pessoas buscam encontrar em alguém uma espécie de salvador. Mas eis aí o grande equívoco! Devo ou não acreditar que um dia o Pequeno Príncipe saiu de seu planeta e veio me ver? Devo ou não aceitar que alguém, uma alma salvadora, veio ao meu encontro para tirar-me da mesmice? Devo ou não admitir que existam anjos ao nosso redor, capazes das mais nobres atitudes? Devo ou não aceitar que, talvez, nunca tenha sabido o que é amar? Aliás, caros leitores, semanticamente, esse é um dos verbos mais complexos que existe na língua portuguesa. Eu não sei se deveria ter acreditado no Pequeno Príncipe, pois ele se deixou seduzir por uma serpente. As almas, por mais puras e salvadoras que sejam, sempre caem em suas próprias armadilhas, apodrecendo na escuridão. Os anjos? Certa vez ouvi que até mesmo eles têm seus planos perversos e não acho que dessa vez tenha sido diferente. Ele tinha um plano!
Devo-lhes uma resposta: será que eu nunca soube o que é amar? Essa é uma questão muito difícil, para a qual não tenho uma resposta imediata. Muitos dizem, quando não querem mais amar, que sentem ódio. Não acho que o ódio seja contrário ao amor. Se você odeia, quer dizer que ainda se importa. O sentimento contrário ao amor é a indiferença. Não acredito, também, que exista “o casal perfeito”, “as duas almas que nunca morrem”. Aliás, eles existem sim. Ficam no alto de um bolo, em cima de uma cobertura de chantilly. O segredo desse casal é bem simples: eles não precisam olhar um para o outro.
Não sou tão insensível, apesar de o orgulho sempre falar mais alto, e sei que já amei. O desejo de estar onde não poderia, os devaneios durante noites seguidas e todo aquele êxtase que sentia são provas disso. Hoje tenho somente um desejo: Esquecer. Uma resposta? Adeus. Um sentimento? A indiferença, quiçá. E eu? Não sei dizer. Ainda me faltam palavras para que eu possa me expressar como eu gostaria. Talvez um dia eu seja capaz de olhar para trás, ver que estou bem e que tudo foi apenas um sonho. Uma certeza? Todas as lágrimas serão esquecidas, junto às lembranças, pois tudo passa, até o tal amor. Entretanto, a cada tentativa, via renascer em mim um desejo diferente. Como a Fênix, via ressurgir das cinzas sentimentos que julguei ser incapaz de sentir novamente. Portanto, obviamente, nem tudo deverá ser apagado do meu livro de memórias, pois algumas coisas foram filtradas e o sentimento não é de repúdio por isso. Compaixão, talvez, defina melhor. Dói. Dói crescer. Dói tentar esquecer. Finalmente uma palavra para o que procurava: dói. Ah! Mon petit bonhomme, petit bonhomme j'aime entendre ce rire! Tu me manques, mon Petit Prince et je t'aime toujours.
Assinar:
Comentários (Atom)