domingo, 9 de fevereiro de 2014

O último anjo

Hoje o dia não foi muito comum. Acordei tarde, esperando uma mensagem que não chegou. Levantei-me e passei o dia me arrastando até que chegasse, novamente, a hora de dormir. Ultimamente tenho me sentido assim: um vegetal, que não sabe a que horas, nem quando abandonará essa vida; uma lagarta, presa a um casulo, sem saber quando a primavera chegará e minhas lindas asas sairão a colorir os céus; um prisioneiro em meu próprio escafandro. Escrever, para mim, sempre foi uma espécie de fuga. Pelas palavras, conhecia outros mundos, me encontrava com tanta gente e nos conectávamos como nunca. Mas agora me abandonaram e não encontro vocabulário que seja capaz de significar o que está preso dentro do meu escafandro, dentro do meu casulo ou em minhas raízes vegetais. Porém, não é só com elas que tenho tido essa má sorte, esse abandono.
Algumas pessoas buscam encontrar em alguém uma espécie de salvador. Mas eis aí o grande equívoco! Devo ou não acreditar que um dia o Pequeno Príncipe saiu de seu planeta e veio me ver? Devo ou não aceitar que alguém, uma alma salvadora, veio ao meu encontro para tirar-me da mesmice? Devo ou não admitir que existam anjos ao nosso redor, capazes das mais nobres atitudes? Devo ou não aceitar que, talvez, nunca tenha sabido o que é amar? Aliás, caros leitores, semanticamente, esse é um dos verbos mais complexos que existe na língua portuguesa. Eu não sei se deveria ter acreditado no Pequeno Príncipe, pois ele se deixou seduzir por uma serpente. As almas, por mais puras e salvadoras que sejam, sempre caem em suas próprias armadilhas, apodrecendo na escuridão. Os anjos? Certa vez ouvi que até mesmo eles têm seus planos perversos e não acho que dessa vez tenha sido diferente. Ele tinha um plano!
Devo-lhes uma resposta: será que eu nunca soube o que é amar? Essa é uma questão muito difícil, para a qual não tenho uma resposta imediata. Muitos dizem, quando não querem mais amar, que sentem ódio. Não acho que o ódio seja contrário ao amor. Se você odeia, quer dizer que ainda se importa. O sentimento contrário ao amor é a indiferença. Não acredito, também, que exista “o casal perfeito”, “as duas almas que nunca morrem”. Aliás, eles existem sim. Ficam no alto de um bolo, em cima de uma cobertura de chantilly. O segredo desse casal é bem simples: eles não precisam olhar um para o outro.
Não sou tão insensível, apesar de o orgulho sempre falar mais alto, e sei que já amei. O desejo de estar onde não poderia, os devaneios durante noites seguidas e todo aquele êxtase que sentia são provas disso. Hoje tenho somente um desejo: Esquecer. Uma resposta? Adeus. Um sentimento? A indiferença, quiçá. E eu? Não sei dizer. Ainda me faltam palavras para que eu possa me expressar como eu gostaria. Talvez um dia eu seja capaz de olhar para trás, ver que estou bem e que tudo foi apenas um sonho. Uma certeza? Todas as lágrimas serão esquecidas, junto às lembranças, pois tudo passa, até o tal amor. Entretanto, a cada tentativa, via renascer em mim um desejo diferente. Como a Fênix, via ressurgir das cinzas sentimentos que julguei ser incapaz de sentir novamente. Portanto, obviamente, nem tudo deverá ser apagado do meu livro de memórias, pois algumas coisas foram filtradas e o sentimento não é de repúdio por isso. Compaixão, talvez, defina melhor. Dói. Dói crescer. Dói tentar esquecer. Finalmente uma palavra para o que procurava: dói. Ah! Mon petit bonhomme, petit bonhomme j'aime entendre ce rire! Tu me manques, mon Petit Prince et je t'aime toujours.

Nenhum comentário:

Postar um comentário