domingo, 30 de dezembro de 2012

Sentir saudade

Torrencial, a chuva cai do lado de fora do meu apartamento. Ao meu lado, apenas Machado de Assis e uma xícara de café me fazem companhia. Há dias chove sem parar e, estranhamente, não me sinto confortável com essa situação. Mais alguns capítulos e doses elevadas de cafeína e ainda não sei se Capitu traiu Bentinho. A chuva, subitamente, resolveu cessar.
Do lado de fora, pela primeira vez em muitos dias, pude ver os primeiros raios de sol. Uma forte claridade me atordoava em meu quarto. Caminhei em direção à janela para ver se algum arco-íris havia se formado. Em meio ao barulho das buzinas dos carros e da gritaria de algumas mulheres, alguns homens voltavam ao trabalho, com martelos e mais algumas ferramentas em mãos. Havia algum tempo desde que a obra na casa em frente tinha sido interrompida. De súbito, estava sentado na cadeira de balanço, que ficava na varanda, obscura e sombria, daquele velho apartamento. Machado de Assis não mais me servia de companhia. Apenas mais uma xícara de café. Foi então que notei que somente três homens trabalhavam naquela casa. Era uma reforma simples, mas devido ao meu total interesse pelo que acontece ao meu redor, não imaginei que assim fosse.
Meu apartamento havia sido construído de maneira singular. Todos os cômodos foram dispostos para que as portas não ficassem umas em frente às outras. As quatro janelas foram, milimetricamente, alinhadas. Na sala, havia apenas uma estante com todos os livros que eu havia conseguido comprar ao longo de minha vida. Não me preocupava em ter sofás, mesas de jantar ou poltronas, pois quase nunca recebia visitas. A casa ao lado também era singular e, pela primeira vez, reparei em cada detalhe daquela antiga construção.
Mais uma marretada e pude ver que por trás de todo aquele reboque de cimento, havia uma parede azul. O azul me fascina! É a cor do céu, a cor refletida pelas águas do mar e a cor dos olhos de alguém que um dia amei. Sinto-me desesperado! Parece que foi ontem que esse azul me deixou. Percebo que faltou-me conjugar esse verbo que, a alguns, é muito caro. Hoje, lamento e choro não poder olhar ao meu redor e, como era naquela antiga parede, ver-me, como um reflexo, através daqueles olhos azuis.
- Por que? Preciso somente entender quais são os verdadeiros motivos que a levaram a fazer isso. Eu não fui um bom marido? Um bom pai, talvez? Responda!
- Não, você é um excelente marido e não tenho do que me queixar. Apenas não sei explicar como me deixei envolver. Eu sinto muito...
- Vagabunda!
Se fechar os olhos, ainda sou capaz de ouvir os dedos e a palma da mão de meu pai, estralando contra o rosto de minha mãe. Indo mais longe, sou capaz de ouvir os gritos dela, implorando por piedade, pedindo perdão. Ele não fora um homem agressivo e se, naquele momento, estava sendo, era em uma tentativa de redimir-se e de fazer com que minha mãe se redimisse diante do próprio pecado.
Amou daquela vez como se fosse o último... Beijou sua mulher como se fosse a única... E cada filho seu como se fosse o pródigo... E atravessou a rua com seu passo bêbado...
Dois dias depois encontrei meu pai sobre o piano. Em seu peito já não batia aquele coração que tanto havia sofrido por minha mãe. Suas mãos, cheias de calos devido aos anos de trabalho, não mais me acariciariam à noite. Elas haviam sido usadas pela última vez apenas para abrir um frasco. Não chorei, apenas o abracei sem nada dizer. Minha mãe, fingindo ser forte, esperou até que o dia amanhecesse para que pudéssemos avisar aos entes sobre o ocorrido. Até hoje culpa-se pelo ato desesperado de meu pai. Ainda posso ouvi-lo pela casa, me contando sobre como havia sido construir mais um prédio, terminar mais uma casa e, ao ver que me assustava, pois temia que ele pudesse cair daqueles andaimes enormes, tentava me acalmar com sorvetes de pistache.
E tropeçou no céu como se ouvisse música... E flutuou no ar como se fosse sábado... E se acabou no chão feito um pacote tímido... Agonizou no meio do passeio náufrago... Morreu na contramão atrapalhando o público...
Mais uma parede no chão e novos tijolos eram postos, um a um. Aquela parede representava o novo, o estranho. É engraçado como o estranho causa desconforto... Se bem que quando me lembro daquela tarde, em que tudo me parecia estranho, não me sinto desconfortável. Estava, sim, em um lugar que não conhecia, vivendo algo que não sei, sinceramente, até hoje se era para eu ter vivido. Meu defeito pode ter sido esse: a dúvida. Sim, a mesma dúvida, talvez, que assola os leitores machadianos. Há algum tempo, mas seus olhos de ressaca não saem dos meus.
Subiu a construção como se fosse máquina... Ergueu no patamar quatro paredes sólidas... Tijolo com tijolo num desenho mágico... Seus olhos embotados de cimento e lágrima...
- Hoje é um dia especial, pelo menos para mim. Ano passado, na segunda “quarta-feira” do mês de novembro, estávamos juntos e esse dia se tornaria um dos mais especiais em minha vida. Lembra? Parece que foi ontem que fomos ao cinema assistir A Pele que Habito. Parece que foi ontem que comemos torta de Chocolate no Bob’s (eu ainda tenho as notas fiscais da lanchonete e também o bilhetinho do cinema). Sinto muito a sua falta! Tu seras toujours mon amour!
- Ainda não tenho as palavras certas para lhe responder. Sempre fui muito ruim para expressar sentimentos e, talvez, por isso não sou capaz de escrever tão bem como você. É fantástico como você guardou esse momento com tanta exatidão. Significa que realmente foi bom pra você e na verdade foi ótimo para mim também. Acho que aquele dia deveria ter se repetido mais e mais vezes. Entretanto, infelizmente, as coisas nem sempre são como queremos. Você é tão especial que sinto raiva de não poder estar sempre em contato com você. Tu es ma belle et tendre rose! Je t'aime à tout jamais.
E essas palavras nunca tiveram tanto sentido: amou daquela vez como se fosse a última.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

The Only Exception

The vow is simple, really. Those who take it promise to stay together for better or for worse. For richer or for poorer. In sickness and in health. To honor and to cherish. Forsaking all others. Until death do us part. Yes, the vow is simple. Finding someone worthy of such a promise is the hard part. But if we can, that’s when we begin to live happily ever after.
"Há dois anos recebi um pedido estranho durante um almoço. Não sei como explicar, mas aceitei a proposta de ajudar um recém-chegado à universidade a entrar em um projeto do qual fazia parte e, confesso, já estava cansado. Feitas as devidas apresentações, ali mesmo, durante o almoço, o recém-chegado deixou de ser um total desconhecido. Soube, naquele momento, que ele era um bom rapaz, logo o levei à coordenação e em pouco tempo ele era mais um bolsista. Pronto. Minha boa ação estava feita e eu poderia dormir em paz. Não, eu não poderia. Algo me chamou à atenção e, desde então, sabia que estava diante de uma pessoa diferente naqueles dias..."
Caxambu, 26 de dezembro de 2012.
Ma puse,
Nossa! Já faz dois anos? Como o tempo passa! E isso é bom... Sabe por quê? Porque posso ver que não cometi um erro ao me aproximar de você e ao permitir que você se aproximasse de mim. Lembro-me de quando estávamos em uma das salas brancas do instituto, de porta e janelas azuis, e você me perguntou quando era meu aniversário. Não entendi o motivo da pergunta, mas respondi e você me disse que o seu era no mesmo dia, mas em outro mês. Novamente fiquei sem entender. Entretanto, depois fiquei pensando: “Pode ser que ele queira fazer amizade, só isso.”. Não era preciso, pois bastaria ter sido esse anjo, desde o início, e eu já teria te convidado para um café ali mesmo, assim que terminássemos o almoço. Contudo, após esses primeiros encontros, nossas vidas tomaram seus rumos. Não sei se você se lembra, mas passamos a combinar o tal café na lanchonete da Universidade. Nunca aconteceu. Ainda bem, pois recebi um convite para um dos melhores almoços que já tive: uma simples lasanha de batatas. Foi especial por ter sido feita por você e, naquele dia, entendi o sentimento que tive quando nos conhecemos. Eu já sabia que você seria alguém a quem eu poderia atribuir o título de melhor amigo, mas não entendia. Naquele dia, você me conheceu de verdade e eu também te conheci. A partir de então, meu afeto e carinho por você apenas aumentaram.
Acho que você sabe que uma de minhas músicas preferidas é Sober. Quantas vezes precisei me sentir assim nos últimos dias e você sempre esteve ao meu lado. Mas, eu não fui o único. A chuva caía quando o telefone tocou...
Se fechar os olhos, sou capaz de ouvir sua voz trêmula, desesperada, talvez, procurando algum tipo de porto onde pudesse ancorar todas as suas angústias. Ainda me lembro de seus olhos assustados, me olhando sem saber o que fazer. Tudo que eu mais queria era que você não se sentisse amedrontado e, então, velei seu sono durante toda aquela noite, ainda tempestuosa. Naquele momento, eu era responsável por você e por fazer com que você se sentisse mais forte... Naquele momento, eu era responsável pela minha rosa. Suas palavras ainda ecoam em meus ouvidos:
- Você é sensível. Eu queria ser assim também, mas não consigo.
Não é isso. Basta olhar para trás e ver tudo que aconteceu. Apesar de todo sofrimento, foi capaz de perdoar algo que tanto te fez sofrer. Naquele dia, pude ver que o menino ingênuo que conheci há dois anos ainda está lá. Talvez, hoje mais sensível, mais forte, mais sábio e mais lutador. Sinto-me orgulhoso por ter feito parte dessa jornada e poder ver que aquela sementinha frágil amadureceu e, agora, é minha tendre rose. Hoje, sei quando resolvi ajudar o novato, cativei minha rosa. Darling, you are the only exception!

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Still Here: For the Last Time.

Em um ato, talvez desesperado, Rita se jogou do último andar do prédio onde morava. Enquanto caía, viu sua vida passando através das janelas daqueles sombrios apartamentos. Primeiramente, viu suas reminiscências de infância. Escura e claramente ao mesmo tempo, sua juventude corria pelos trilhos do trem que dividia as ruas principais daquele bairro. Foi então que Rita começou a revirar o baú, constituído por suas lembranças. Mesmo que não tivesse durado muito tempo, o que havia acontecido havia sido verdadeiro. Guilherme tinha significado, absolutamente, muito para ela. Em sua frente, Rita o viu pela primeira vez como um anjo. Naquele momento, soube que não havia mais volta.
- E então? A qual filme vamos assistir?
- Não sei! Escolha você, pois eu já escolhi o que faríamos.
- Se lembra? Foi assim na primeira vez que nos encontramos. Eu já disse que gosto muito de você. Infelizmente, não fomos felizes ao sermos distanciados assim. Eu te fiz uma promessa, não foi? Ela será cumprida. Não se desespere, pois sempre estarei ao seu lado e nada fará com que esse afeto se reduza. Amanhã será um novo dia... Quando acordar, meu bebê, estaremos juntos.
Rita sabia que não iria acordar, muito menos estar com Guilherme outra vez. Rita sabia que essa era a última vez em que o veria. Guilherme, assim como sua confusa alucinação naquele momento, havia sido um lindo devaneio.
- Se lembra de quando brigamos? Você me disse que era melhor não nos falarmos mais, pois me amava demais. Jamais deixaria de falar com você, pois também te amo.
- Sim. Naquele dia, chorei o dia todo. Fiquei trancada no quarto. Você tinha me dito que havia conhecido outra pessoa. Sabe o que mais me dói? Você não saber exatamente o que sente, tampouco o que quer...
Após um breve silêncio, Guilherme chorou pela última vez.
- Por que você fez isso? Nós ainda tínhamos alguma chance...
- Não creio. Eu já havia feito essa pergunta e sua resposta foi um “não sei”. O que eu mais queria ouvir naquele momento era um “sim” e se não fomos felizes, a culpa é sua. Eu te amei como não havia amado antes. Nunca pensei ser capaz de sentir algo assim por alguém que nem ao menos respondia às mensagens que eu costumava enviar. Se alguém sofreu, se alguém teve um corte profundo na alma e no coração, esse alguém está diante de você. E “amar” não é um verbo a ser conjugado e dito a alguém. Antes disso, é preciso senti-lo, compreendê-lo e só então, ele passa a ser mais que uma simples associação de fonemas. Somente nesse momento, toda a carga semântica e significados pragmáticos transcendem ao simples ato discursivo. Hoje, não acredito em nós, não acredito que um dia você me levou ao cinema, que um dia brigamos, que um dia te amei, que um dia tomamos sorvete juntos e depois caminhamos pela orla da praia. Isso tudo não passou de um sonho, que agora chega ao fim. Entretanto, sopre me um último beijo...
Naquele momento, Rita sentiu um forte impacto sobre sua cabeça. Ao mesmo tempo, seus lábios foram docemente tocados. O gosto em sua boca que, até então, era meio agridoce, passou a ser o de uma torta de chocolate que haviam dividido outrora. Pela última vez Rita chorou e, finalmente, encontrou amor em um lugar sem saída, juntando-se aos cacos da porcelana, fazendo parte daqueles estilhaços que foram arremessados contra o vento.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Ato Final: Súplica

- Rita, acorde! Ele não te ama mais! Nunca te amou... Nunca desejou estar ao seu lado, como você deseja estar ao lado dele. Nunca foi capaz de fazer nenhuma concessão para que ficassem juntos! O mundo continua lá fora... Tudo passa, até o amor. Você não está sozinha; nunca esteve... Siga em frente, pois é isso que ele faz agora, do outro lado da cidade. Todos estão rindo de você e a culpa é sua. Você procurou pela infelicidade... Por que foi se apaixonar assim? Como pode entregar seu coração de tal maneira? Você havia passado por tudo isso há algum tempo e mesmo assim se deixou seduzir...
- Mas ele parecia gostar de mim! E se o amei, foi simplesmente pra tentar apagar a antiga dor que tomava conta do meu coração.
- Não! Isso não justifica! Seus amigos a alertaram e mesmo assim você o amou mais que a si mesma. Sua vida é essa porque você quer que assim seja. Que seja feita, então, a tua vontade!
- Para! Me deixe em paz! Não quero te ouvir mais... Eu sei que tudo que está acontecendo é porque eu desejei que assim fosse! Você não vai me perturbar mais...
- Você sabe como se livrar de todo esse sofrimento. Vale e pena continuar sorrindo durante o dia, servindo de acalento a seus amigos, se à noite, ao entrar em seu quarto, você chora feito uma criança? Que seja feita a minha vontade!
- Os lençóis já estão molhados pelo suor derramado de sua face, pobre criança! Você sabe que não é difícil encontrar pecadores pelas ruas. Basta olhar através das janelas e ver que eles existem. Mas, qual o seu pecado, pobre Rita? O que você fez de errado?
Rita não havia pecado, mas apenas amado demasiadamente. Rita não tinha que pedir perdão, mas sim absolver o Judas ao qual ela estava presa.
- Traidor!
Mas, o que ela podia fazer se estava enamorada por aquele Judas? Ela era aquele Judas e ainda não tinha percebido isso.
- Judas! Traidor! Beijou minha face e me atirou em um abismo cujo fim parece mais escuro que seu coração!
- Acalme-se, criança! Não sou Judas. Apenas quero que saiba que gosto muito de você. Não posso dizer que te amo, mas você é especial para mim. Quero que sejamos um só, como a raposa e o príncipe. Você me cativou e...
- Chega! Para, por favor! Eu não quero te ouvir mais... Me deixe em paz. Eu apenas quero dormir e esquecer tudo que vivi. Vá embora! Que agora seja feita a minha vontade!
- Vale e pena continuar sorrindo durante o dia, servindo de acalento a seus amigos, se à noite, ao entrar em seu quarto, você chora feito uma criança? Que seja feita a minha vontade!
- Eu te amo, Rita! Que seja feita a nossa vontade!
E então, Rita acordou. Seu quarto estava cheio de folhas secas, espalhadas por todo o ambiente. Era fim de outono e o inverno batia às portas daquelas pobres pessoas do pequeno vilarejo. Rita sentia um pouco de frio e ainda estava descontrolada, devido aos últimos acontecimentos, revividos em seus pesadelos. Seu quarto pareceu pequeno diante de todo sofrimento que ela vinha enfrentando, sozinha. Seus amigos estavam ocupados demais para lhe dar atenção. Caminhou até a cozinha, pegou uma xícara de café e subiu para o último andar do prédio onde morava. Enquanto esperava o elevador, tudo que vivera durante aquela noite passava diante de seus olhos. Aquelas vozes! Quem eram aquelas pessoas? Por que aquilo tudo? Rita procurava, em vão, entender tudo que se passava. Entrou no elevador e enquanto subia, lembrou-se de Guilherme. Seu peito doía, enquanto de seus olhos brotavam lágrimas. E então, Rita lembrou-se mais uma vez do que havia ouvido durante a noite:
- Você sabe como se livrar de todo esse sofrimento. Vale e pena continuar sorrindo durante o dia, servindo de acalento a seus amigos, se à noite, ao entrar em seu quarto, você chora feito uma criança? Que seja feita a minha vontade!
Pálida, ela chegou ao último andar. A xícara de café já estava vazia. Rita caminhou em direção à sacada. Foi então, que se lembrou de uma das vozes que havia ouvido durante a noite. Era Guilherme.
- Quero que sejamos um só, como a raposa e o príncipe. Você me cativou e...
Rita, finalmente, compreendeu o que ele queria e agora seu sonho fazia sentido.
- Sim, mon ange. Perdoo-te! Você não teve culpa de nada. O erro foi meu! Tudo que você me dizia, as razões para não ficarmos juntos, agora fazem sentido. E tudo que deixamos de viver, ficará para uma outra vida, onde eu possa ser sua. Quem sabe eu não consiga te fazer ficar? - E cada vez a beira do abismo era mais próxima a ela. Eu te amo e para sempre ficarei ao seu lado! Sopre-me um último beijo...
A xícara caiu e espatifou-se contra um carro que passava pela rua. Em seguida, Rita encontrou amor em um lugar sem saída, juntando-se aos cacos da porcelana, fazendo parte daqueles estilhaços que foram arremessados contra o vento.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

I love you once... I love you twice: Goodbye.

"Na primeira noite adormeci sobre a areia, a quilômetros e quilômetros de qualquer terra habitada. Estava mais isolado que um náufrago num bote perdido no meio do oceano. Imaginem qual foi a minha surpresa quando, ao amanhecer, uma vozinha estranha me acordou. Dizia:
- Por favor.... desenha-me um carneiro!
Levantei-me num salto, como se tivesse sido atingido por um raio. Esfreguei bem os olhos. Olhei ao meu redor. E vi aquele homenzinho extraordinário que me observava seriamente. Olhava para aquela aparição com os olhos arregalados de espanto. Não se esqueçam de que eu me achava a quilômetros e quilômetros de qualquer terra habitada. Quando finalmente consegui falar, perguntei-lhe:
- Mas... O que fazes aqui?
E ele repetiu, então, lentamente, como se estivesse dizendo algo muito sério:
- Por favor... desenha-me um carneiro.”
E não foi assim que conheci, um dia, o principezinho. Era uma tarde fria, como todas as outras, caracterizando o inverno daquela região. Sentia frio, e estava com uma imensa vontade de tomar um banho, e, em seguida, uma xícara de chocolate quente ou algo que pudesse me manter aquecido. O frio queimava meu rosto, fazendo com que minhas bochechas ficassem rosadas, devido à baixa temperatura. O relógio marcava 17 horas e precisava me desligar do computador, mas não podia. Precisava corrigir alguns trabalhos, reescrever textos que já estavam pendentes há algum tempo e não podiam mais esperar. Meu chocolate podia. Meu corpo podia congelar de frio, assim como minhas bochechas podiam congelar para sempre. Felizmente, eu tinha que fazer isso. Os ponteiros do relógio não paravam, me fazendo ver que meu tempo se esgotava e precisava entregar os textos... Foi então que me vi em uma situação difícil: havia um problema cuja resposta eu não tinha. Como eu odeio estudar gramática de uma língua estrangeira! Agora sim: foi, então, que conheci o pequeno príncipe.
A partir daquele momento, minha vida mudaria. A partir daquele momento, estudar gramática não seria algo oneroso. Passamos, então, a descobrir as semelhanças e diferenças entre aquele pequeno-grande ser e eu. Gostos musicais, os mesmos chocolates, os mesmos perfumes, os mesmos hábitos e até mesmo as mesmas “grosserias”. Os meses se passaram rapidamente, desde então, e já faz quase um ano, desde aquela tarde fria. Um rio de lágrimas já foi derramado, mas oceanos foram construídos, a partir de sorrisos e momentos fantásticos, que não sei se irão se repetir.
Sinto saudades daqueles momentos em que descobri que chocolate meio amargo era o melhor do mundo para ambos. Sinto saudades daqueles momentos em que às 3h30 já era tarde demais para acender a luz do quarto, pois alguém poderia acordar. Sinto saudades daqueles momentos, onde 4h30 ainda era cedo pra desligar a webcam. Sinto saudades daqueles momentos em que balas eram oferecidas a quase 500 km de distância (como se fosse possível aceitar, mas mais impossível seria recusar!). Sinto saudades dos momentos em que, através de sinais, dizíamos “te amo” ou “gosto muito de você”. Sinto saudades dos momentos em que podia te ouvir cantando “João e Maria, Folhetim e Raphaël”, enquanto presenciava uma crise de ciúmes, causada por um simples telefonema. Sinto saudades de te ver costurando uma fantasia para uma festa, onde uma luva era uma peça indispensável ao figurino. O que dizer sobre as implicâncias fonéticas, fonológicas e prosódicas acerca dos nossos dialetos? Enfim... Agora, o que temos é uma promessa eterna de “nunca te esquecerei” e um bilhete de cinema, que representa toda nossa história: I love you once, I love you twice... I love you more than beans and rice. Goodbye.

sábado, 12 de maio de 2012

Carta a um amigo

Mariana, 12 de maio de 2012.
Sweetness,
Imaginemos que alguém escreve um texto e que, de repente, esse alguém precisa abrir alguns parênteses. O que eles significam? Certamente, farão referência a alguma citação ou reprodução de fala ou explicação de algo. Mas e se usarmos isso como uma metáfora para o que acontece em nossa vida? De repente, parênteses ou aspas são colocados diante de nós. Nós? Pronome ou substantivo? Nesse caso, o parêntese foi um presente para o pronome, em uma tentativa de servir de auxilio ao substantivo. E assim, em uma tela de word, algo aconteceu. Foi assim com você, sweetness... É estranho pensar que, de repente, você tem como melhor amigo alguém que você conhece há pouquíssimo tempo, mas que sabe que há muito estava predestinado a encontrar. Maktub. É o que muitos irão dizer. Certamente, quando estivermos em estilhaços, quem é que procuraremos? Esse alguém! Sabe por quê? Porque você tem a certeza de que ele vai estar pronto para te dar um abraço, para te ouvir e, se for preciso, enxugará suas lágrimas. Não! Espere! Ele não enxugará suas lágrimas, mas sim não deixará que elas brotem.
É tão bom saber que há sempre um sorriso me esperando, em uma segunda feira, às 7h30, mesmo quando acordo mal humorado... Aliás, um sorriso cativante! Citando meu livro preferido: C’est le temps que tu as perdu pour ta rose qui fait ta rose si importante. Cada segundo passado ao seu lado é especial. Seja em momentos de risadas (às vezes puras, às vezes maldosas), seja em momentos de angústia (não importa se minhas ou suas angústias) ou simplesmente conversando por meios eletrônicos. Isso sim fez minha rosa tão importante. Atualmente, você tem me feito acreditar que “what doesn’t kill me makes me stronger”. Como agradecê-lo por isso? Não sei... Acredito não haver item lexical capaz de representar o que sinto. Há no léxico alguns verbos de valores semânticos que poderiam ser usados, tais como “amar, adorar, gostar” e outros de primeira conjugação, que compõem esse grupo. No entanto, não creio que eles, de fato, possam significar mais do que um gesto, como um abraço. O que fica é um desejo de nunca mais me separar. Uma vontade enorme de te colocar dentro de uma caixinha e nunca mais deixar que você saia, somente para poder te levar comigo para todos os lugares!
Finalmente... É piegas? Sim! Mas cabe perfeitamente uma nova citação do meu livro preferido: Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé. Sim, você se tornou responsável pelo que cativou, meu amigo. Todos nós somos responsáveis pelo que cativamos. Que assim seja! E que a “tela de word” se prolongue por toda a eternidade... Amo-te.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Texto da (des) continuidade

Não me deixe... Não me deixe...
Logo que acordei, senti um vazio ao meu lado na cama. Estava sozinho novamente. Sentia frio e não tinha coragem de sair do quarto, ir até a cozinha preparar uma xícara de chocolate quente e voltar, sabendo que não estaria lá. Quando abri a janela, vi que chovia um pouco e tudo estaria limpo, após mais uma procela.
Não me deixe... Não me deixe...
Uma promessa havia sido feita. Um sentimento havia sido correspondido e nada mudaria. Pelo menos era assim que pensava. Mas e se ao longo do dia eu percebesse que a promessa também havia sido um sonho? Muitos não acham estranho como algumas coisas acontecem em nossa vida. Somente um fato é estranho: não aceitamos que uma história chega ao fim. Cada dia, mais frustrados, sentimos que conjugar verbos como “amar”, “gostar” e todos os outros de mesmo valor semântico é tarefa para poucos.
Não me deixe... Não me deixe...
Outro dia, esses sentimentos foram postos à prova. O que aconteceu? – perguntam alguns poucos, ao verem que lágrimas escorrem. As lágrimas escorreram sim. Aliás, as lágrimas ainda escorrem, molhando o teclado dessa vez. Que redundância! Uma mesma combinação de verbos e substantivos usados tantas vezes!
Não me deixe... Não me deixe...
Pessoas são criaturas complicadas. Algumas, muitas vezes são capazes de atos grandiosos, que nos deixam estagnados perante determinados acontecimentos. Encontrar pecadores não é uma tarefa difícil, pois basta olhar através das janelas, mesmo em dias chuvosos como esse, e vai ver que eles existem. São capazes das piores formas de traição e não sabem agir discernindo pecado de maldade. Assim, não há promessa, tampouco criaturas (des) complicadas que fazem com que essa sensação de “Não me deixe” escorra junto com a água das chuvas. Já anoiteceu novamente e mais um dia foi perdido. A propósito, não é engraçado que antes de dormirmos, mentimos para nós mesmos em uma tentativa desesperada de que na manhã seguinte tudo será verdade?
Não me deixe... Não me deixe.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

The one that got away

- Eu encontrei amor em um lugar sem saída. Será mesmo? Não sei.
Naquela noite, ao encostar a cabeça no travesseiro, esperando que o sono viesse, Clara refletiu sobre sua vida. Suas escolhas, às vezes precipitadas, fizeram com que ela rolasse na cama por toda noite e o sono não veio. Sobre seus pensamentos, pesavam escolhas feitas há pouco tempo. Especificamente, Clara pensou em Matheus e no espaço que ele ocupava em seu coração. Ou melhor, na substituição que ela desejava que ele fizesse. Enquanto o sono não vinha, pensava no final de suas férias. Logo, sua rotina seria retomada. A vida de Clara era singular: ela se levantava sempre às 7 horas, colocava o lixo do lado de fora, na calçada, voltava para a cama e esperava até que alguém a convidasse para tomar café. Durante o almoço, estava sempre rodeada pelas mesmas pessoas – aliás, um número bem reduzido de transeuntes. No período da tarde, dedicava-se aos estudos, pois tinha o desejo de se tornar uma profissional bem sucedida em sua área. À noite, ia para a faculdade e após assistir a algumas aulas, voltava para casa. Estava sempre sozinha ou cercada por aquele reduzido número de pessoas. Após algumas horas, ainda sem sono, seu celular tocou sobre a mesinha, encostada ao lado da cama. Era uma mensagem de texto. O remetente? Matheus. Clara não se conteve e foi ler a mensagem, que era muito curta, porém objetiva. De seus olhos, duas lágrimas caíram, escorrendo pelo seu rosto. Matheus não ocuparia nenhum espaço em seu peito, tampouco substituiria outra pessoa. Aquela mensagem significou uma espécie de adeus entre eles. No entanto, não era compreensível tal situação, uma vez que ela, confusa como sempre, não entendia seus sentimentos. O que realmente ela queria? Voltou para a cama – a mensagem já estava apagada – e deitou-se novamente. Mais do que nunca, quis dormir. Dessa vez de um jeito diferente. Até que os pássaros cantassem novamente, anunciando uma nova estação! Quem sabe tudo não seria esquecido? Quem sabe sua vida não seria nova também? E se de repente ela visse que tudo havia sido um sonho? Valeria a pena tentar dormir... Porém, o sono não veio. Em uma tentativa desesperada, tomou dois comprimidos e voltou para a cama. Matheus começava a ser esquecido e seu outro – talvez único – amor voltou a sua mente. Suas lembranças eram boas naquele momento e, de súbito, Clara adormeceu.
- Sim, encontrei.
Na manhã seguinte Clara respirou aliviada. Nunca havia existido ninguém, além de seu anjo. Tudo havia sido um belo sonho. Sua vida não mudara e ela tinha certeza de que havia encontrado amor em um lugar sem saída. Matheus era apenas outro anjo que a fizera divagar por uma noite – somente uma noite – em uma tentativa de fugir de sua realidade. Matheus ficaria esquecido naquela turbulenta noite, enquanto sua vida a esperava lá fora. Seu único e verdadeiro anjo não a abandonaria, pois uma promessa, da qual ela nunca se esquecera, já havia sido feita.

Like an angel

Assim o conheci. Era um dia ensolarado, porém com algumas nuvens no céu. Mesmo assim, havia tédio naquele dia. Seriam somente mais umas horas comuns, senão tivesse ido perder tempo na internet. Entretanto naquele dia, definitivamente, não perdi tempo. Mas essas conversas que começam assim, de repente, nunca caminham para lugar nenhum mesmo. Com absoluta certeza, sairíamos daquele ambiente virtual e certamente nunca mais nos falaríamos e mais certo ainda seria que nunca nos veríamos. Não pude deixar de perceber que havia algo especial naquela pessoa; não era somente mais um buscando amizades na internet, tampouco gastando seu tempo, que, aliás, não existia. Mas tudo bem. No fundo, sentia que valeria a pena agir diferente naquele momento e permitir que o desconhecido começasse a fazer parte da minha vida. Já tinha dado certo uma vez, não tinha nada a perder e se ficasse frustrado, bastaria esquecer aquele dia. Mas novamente havia sido surpreendido. O desconhecido, dias depois, era mais que conhecido e me sentia seguro e protegido ao falar com ele. Estranho pensar que algumas pessoas vêm ao mundo com a missão de encontrar outras e fazer com que se sintam assim, como pequenos carneiros guardados em caixas pequenas, colocadas e trancadas dentro de uma gaveta. Mais estranho ainda é pensar que alguém que vive em uma realidade completamente diferente daquela que você acredita ser a sua é mais parecido com você do que qualquer outra pessoa. Entretanto, não é estranho acreditar que pessoas são como músicas: basta ouvir uma e se lembrar de alguém. Basta ouvir o barulho da chuva para se lembrar de algum momento em que raios e trovões dominavam a atmosfera terrestre e enquanto você chorava e se lamentava por alguma coisa, aquela pessoa estava lá, mesmo que distante através de uma janela virtual, tentando fazer com que você se sentisse menos infeliz.Como caracterizá-lo? Poderia dizer que é alto ou baixo, magro ou gordo, poderia dizer que tem cabelos longos ou que está quase sem cabelos, que tem olhos azuis, verdes, castanhos, enfim. Entretanto, isso me parece muito superficial para falar de alguém. Mas há uma coisa que posso dizer com toda certeza: existe ali um menino, preso a uma carcaça de adulto. Um menino que está em busca de sua felicidade, e que parece viver em uma espécie de terra do Nunca, ciente de que às vezes é preciso brincar de ser adulto, sem se esquecer da criança que adora Diamante Negro. Esse menino é capaz de cativar a todos com algo muito simples, seu sorriso, que é tão belo, capaz de libertar qualquer um de seu escafandro. Às vezes não é difícil encontrar pecadores nos subúrbios. Basta olhar através das janelas fechadas e poderá encontrar uma vizinha traindo seu marido, outra rejeitando seus filhos, algumas tramando contra seus amigos e finalmente aquelas que sabem agir distinguindo pecado de maldade. Mas basta olhar através das portas fechadas para encontrar também pessoas como aquela, dotadas de um sorriso que te cativa, e que te fazem sentir que deixar um espaço para o desconhecido nem sempre significa perder tempo. Essas pessoas podem te provar que existem sentimentos que crescem a cada dia, independente das condições impostas por extensões territoriais. Basta dizer “Je t’aime mon ami”! Isso será capaz de fazer com que a distância diminua.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Oui, C'est vrai!

23h52min
- Venham! Corram! Os fogos vão começar!
- Espere um minuto, estou ligando para um amigo que está na França, quero desejar a ele Feliz Ano Novo!
E assim começam ou findam-se, dependendo da perspectiva, toda ansiedade pela chegada de mais um ano. Na sala de jantar, uma mesa farta está posta. É noite de festa e todos os convidados estavam ansiosos por esse momento. Afinal, mais um ano chega ao fim! Todos devem comer bem, beber um pouco de vinho, rir e ficar com aqueles que amam. Mas agora está na hora de ver os fogos... Do lado de fora daquela sombria casa, que esconde muitos segredos e que hoje está iluminada por todas as luzes que a enfeitam, três pessoas são observadas de longe: uma mulher, de pouco mais de 30 anos; um homem, com aproximadamente 40 anos e um jovem rapaz, que não me parece ter mais que 21. São pessoas muitos diferentes e estão ali somente por conhecerem alguém que conhece o dono da casa. Enfim, essas coisas estranhas que acontecem por obra de algo chamado destino. Pobre destino! É ele sempre culpado de tudo. Mas, não foi o destino o personagem principal dessa noite... Do lado de dentro da casa, aproximadamente 11 pessoas se ajeitavam entre os sofás e as cadeiras da sala de estar. Impressionante, mas todos ali agiam como se se conhecessem há décadas, como se tivessem sido amigos por toda a vida e como se naquele momento, de fato, comemorassem juntos a chegada de um novo ano. É lamentável, mas não era bem isso que acontecia naquela estranha casa. Era visível nos olhos de todos que mal se suportavam e estavam ali somente porque não queriam ficar, frustrados talvez, em suas casas assistindo especiais de final de ano na TV.
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- Que belo espetáculo! Esse ano os fogos estão mais lindos que no ano passado! Feliz Ano Novo a todos!
- Tens razão! Acho que é a primeira vez que me emociono vendo isso! Feliz Ano Novo!
E assim deu-se início a um brilhante e comovente show pirotécnico no céu. Todos, vestidos de branco e comendo lentilha, olhavam abismados para o alto, maravilhados com tamanha beleza. Após alguns minutos, os 11 que não haviam saído de dentro de casa antes, retornaram ao interior da casa, tomando cada um o seu assento à mesa. Os outros três continuaram do lado de fora da casa, olhando para o céu, que a essa altura já não estava mais iluminado pelos fogos. A mulher de pouco mais de 30 anos, que agora eu sei que se chama Danielle, não tinha tido um bom ano, pois havia sido demitida de seu trabalho, passado por uma complicada cirurgia devido a um aborto espontâneo, que acabou causando lhe complicações. Seu grande sonho havia sido interrompido e ela não seria mãe. Que sorte triste a de Danielle. Seu rosto, pálido e magro, trazia todo sofrimento do qual fora vítima. Seus olhos, que eram lindos, naquela noite lacrimejavam mais do que nunca. Então, ela olhou para o céu e disse: “Quero esquecer esse ano horrível que tive. Que no próximo ano eu possa ser feliz, pois nesse não fui.” Em seguida, entrou e foi se juntar aos “amigos”. O homem de quase 40 estava feliz naquela noite. Infelizmente não descobri seu nome. Havia conseguido uma promoção no trabalho e a partir do mês de janeiro seria gerente em sua empresa. Seu filho mais velho estava entrando para uma boa faculdade e finalmente a família poderia pagar um cursinho de inglês para a filha mais jovem nos Estados Unidos. Sua esposa também estava feliz, pois há muito tempo desejava uma reforma no apartamento e conseguiriam ainda no primeiro semestre do ano. Seus olhos brilhavam e ele somente agradeceu pelo maravilhoso ano, entrou na casa, pegou um copo de uísque e sentou-se com alguns homens que falavam sobre economia e política, agindo como se fosse um deles. Mas o rapaz de 21 anos era diferente de todos os outros que o acompanhavam. Não se sentia feliz, mas também não estava triste. Ele apenas não queria estar ali, no meio daquela confusão. Seu ano havia sido bom também, apesar de algumas preocupações. Ainda no início do ano, não sabia direito o que fazer. Já estava acostumado a sua nova vida, sabia que não poderia encontrar aquela garota novamente e finalmente começava entender que seu amor nunca havia sido correspondido como desejava. Lamentava, pois sabia que hoje Clarice o amava e somente sentia um grande pesar em não poder dizer “eu te amo” a ela. Conheceu pessoas interessantes, se envolveu com algumas delas e acabou se apaixonando novamente! Encontrou grandes amigos, fortaleceu uma amizade que já tinha certeza que não passaria de apenas “oi”. Estranho, mas algumas pessoas chegam assim, de repente, vindas de longe e ficam para sempre, tornando-se peças fundamentais em um jogo. Com absoluta sinceridade, acho que esse rapaz não seria ninguém sem essas pessoas, mesmo que em número reduzido, especialmente essa última, citada isoladamente, da qual ele gosta e admira muito. Assim como esse e outros amigos que são importantes, há um espaço destinado a uma pessoa, que tanto o tocou e o fez esquecer Clarice. Há um enorme desejo de passar o resto da vida com aquela pessoa que agora está longe. Gostaria que estivessem juntos para sempre, vendo o pôr do sol, caminhando pela orla da praia, indo ao cinema assistir a uma estreia e dividindo uma barra de chocolate, discutindo sobre vários assuntos, às vezes brigando de manhã para que depois de um longo dia se encontrem, com pedidos de perdão e um convite para dividir uma pizza e finalmente sendo feliz. Entretanto, mesmo que com uma história diferente, o rapaz comportou-se de maneira semelhante às outras duas pessoas. Olhou para cima e de seus olhos escorriam lágrimas, mas aparentemente eram lágrimas saudosistas. “Obrigado pelo ano que se encerra e que eu possa receber o carinho e afeto daqueles que cativei ao longo do ano. Queria ter uma caixinha semelhante àquela onde o Pequeno Príncipe guardava seu carneiro, pois poderia colocar todos lá dentro, tentando protegê-los e mantê-los-ia junto a mim. Que eu possa abraça-los sempre que desejar e sempre que tiverem necessidade de um abraço. Finalmente, que possa ter por perto todos que amo, especialmente aquela pessoa, dividindo uma barra de chocolate, indo a estreias no cinema, caminhando pela orla da praia, vendo pôr do sol e brigando comigo. Não preciso de muito, quero somente poder dizer e ouvir novamente je t’aime.” Enxugou as lágrimas e caminhou em direção aos outros dentro da casa. Seus olhos ainda estavam vermelhos, pois havia chorado muito. Tentei me aproximar, mas não tive coragem de perguntar o que lhe afligia. Lá dentro, éramos somente pessoas que jantariam juntas.